Por Victor Klauck, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina e militante da Revolução Solidária
Em 19 de outubro de 2025, o senador e ex-prefeito de Tajira Rodrigo Paz venceu o segundo turno das eleições presidenciais da Bolívia. Concorrendo pelo Partido Demócrata Cristiano (PDC), Paz fez 54,5% dos votos contra 45,5% do ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, da aliança Libertad y Progreso (Libre). Mais do que uma disputa entre o “moderado” Rodrigo Paz – cuja campanha centrou-se na bandeira de “capitalismo para todos” – e Tuto Quiroga – figura vinculada à extrema-direita boliviana e que fora vice-presidente do ex-ditador Hugo Banzer, assumindo o posto após sua renúncia em 2001 – as eleições gerais de 2025 representaram a consolidação da crise das forças progressistas no país andino-amazônico.
Desde a primeira eleição de Evo Morales e Álvaro García Linera em 2005, o Movimiento al Socialismo – Instrumento Político para la Soberanía de los Pueblos (MAS-IPSP ou apenas MAS) havia vencido todas as eleições presidenciais em primeiro turno, chegando a atingir 64% dos votos válidos em 2009. A força política e eleitoral do MAS era tamanha que, apenas um ano após o golpe militar que depôs Morales e Linera em 2019 (inclusive forçando-os ao exílio) e estabeleceu o governo de facto de Jeanine Áñez, o partido voltaria a vencer nas urnas – novamente em primeiro turno – com a fórmula Luis Arce e David Choquehuanca, figuras históricas do MAS e centrais nos governos de Evo Morales.
Não obstante, tal ressurgimento heroico – que conseguira derrotar, nas urnas, o movimento político golpista – foi seguido rapidamente por crises internas que resultariam em disputas pelo controle do partido, em processos judiciais e na consolidação de um bloco (tanto institucional quanto social) de oposição, encabeçado por Evo Morales, ao governo de “Lucho” Arce. Esta disputa contribuiu para aprofundar a crise econômica e social pós-pandemia da Covid, expressa centralmente por desabastecimentos (principalmente de alimentos, de gás e combustível), pelo acirramento da inflação e pelo avanço da dolarização da economia boliviana.
Com um governo impotente e deslegitimado e com fissuras internas insuperáveis, a esquerda se apresentou para as eleições gerais – pleito em que nem Lucho nem Evo concorreram – dividida entre duas candidaturas presidenciais estéreis e um chamado ao voto nulo por parte de Morales. Como resultado, as candidaturas de Andrónico Rodríguez – então presidente do Senado pelo bloco oficialista – pela Alianza Popular (AP) e de Eduardo del Castillo (ministro de governo de Arce) pelo MAS amarguraram um quarto (8,51%) e um sexto lugar (3,17%), respectivamente. Destarte, a representação da esquerda no Legislativo ruiu, somando apenas 13 deputados de 130 e ficando de fora do Senado – câmara onde o MAS já chegou a ter maioria de dois terços.
Este fracasso eleitoral, por muito tempo impensável, expressa efetivamente a ruptura de um bloco histórico que, nascido das lutas antineoliberais da virada do século, conduziu um profundo processo de transformação social (comumente chamado de Proceso de Cambio) e tornou a Bolívia, junto com a Venezuela, como ponta de lança da luta anti-imperialista na América do Sul. Com a derrota deste bloco, apresenta-se hoje um novo horizonte político e social para a nação boliviana, que insere-se de forma central nas disputas geopolíticas na região.
O presente texto busca apontar elementos para analisar as razões da crise da esquerda boliviana, expressa principalmente nas eleições de 2025, e os sentidos do novo governo de Rodrigo Paz para o presente e o futuro da Bolívia.
Proceso de Cambio: da ascensão heroica ao crepúsculo melancólico
Como já citado, a chegada de Evo Morales ao Palacio Quemado insere-se num contexto de intensa efervescência política nacional. A consolidação do neoliberalismo na Bolívia – especialmente na privatização de atividades econômicas como a mineração e na destruição da seguridade social – forçou milhares de bolivianos à informalidade, à migração interna e, em muitos casos, à miséria. No sentido oposto, avançava, especialmente a partir dos anos 1990, a organização política de distintos setores populares, incluindo articulações indígenas como o Consejo Nacional de Ayllus e Markas de Qullasuyu (CONAMAQ) e o sindicalismo cocalero de regiões como Cochabamba – de onde emergiria Morales.
A partir de 2000, com a chamada Guerra da Água – e posteriormente com a Guerra do Gás em 2003 – inicia-se o que o ex-ministro Hugo Moldiz Mercado1 denomina de “período heroico” do Proceso de Cambio. Entre 2000 e 2005, as lutas sociais (incluindo batalhas urbanas como em Cochabamba e El Alto) tiveram duas consequências fundamentais: primeiro, desvelaram uma crise do Estado boliviano, conflagrando uma crise institucional que derrubaria presidentes e impondo freios objetivos ao avanço das privatizações. Segundo, produziram uma síntese política que podemos definir em três eixos: a rejeição do neoliberalismo; a nacionalização dos hidrocarbonetos e a defesa dos demais recursos naturais; e a transformação do Estado através de um processo constituinte. É neste cenário que Evo e MAS despontam como lideranças centrais, consolidando seu protagonismo nas eleições presidenciais de 2005.
Esta retrospectiva histórica faz-se necessária pois só é possível analisar os governos masistas ao contextualizá-los nas lutas sociais e no horizonte estratégico que conformam seus sentidos. Igualmente, é fundamental situar a ascensão do processo de transformação social na conjuntura regional e na chamada “onda progressista” na América do Sul, especialmente na Venezuela – graças à liderança de Hugo Chávez – e do Brasil – que, além de principal país da região, configura-se como parceiro comercial central da Bolívia e cujo governo militar contribuiu para a consolidação do regime ditatorial boliviano.
Assim, Evo Morales e Álvaro García Linera assumem o governo em 2006 em um cenário internacional favorável, porém enfrentando internamente uma profunda crise política e institucional. Apoiando-se no avanço da organização política popular, Morales e Linera partiram prontamente à ofensiva visando transformar o Estado boliviano e concretizar as bandeiras da chamada “Agenda de Outubro”. Neste sentido, o “governo dos movimentos sociais”2, como denominaria Linera, assentou-se em dois pilares fundamentais: de um lado, na nacionalização dos hidrocarbonetos e, a partir de suas divisas, na construção de políticas de distribuição de renda; de outro, na conformação de um processo constituinte que consolidou, em 2009, o caráter plurinacional do Estado boliviano.
O primeiro pilar – que podemos sintetizá-lo como pilar econômico – teve como ponto de partida o Decreto 28.071 de 2006, conhecido como “Heróis do Chaco”, que reestruturou a atividade extrativista de petróleo e gás na Bolívia em modelo similar ao venezuelano, isto é: reestatizou-se a Yacimiento Petrolíferos Fiscales de Bolivia (YPFB)3 e redefiniram-se os termos de exploração, ampliando a fatia do Estado. Desde modo, o Estado boliviano passou a controlar cerca de 75% dos rendimentos oriundos do petróleo e do gás,4 mas garantindo a continuidade da atividade de empresas multinacionais no país. Por meio desta renda extrativista (e novamente seguindo o exemplo venezuelano), o MAS buscou subsidiar políticas econômicas visando a ampliação de direitos e a recuperação do papel do Estado enquanto ator protagonista do desenvolvimento nacional.
Sob tal perspectiva, Evo e Álvaro García protagonizaram reformas centradas na expansão da pequena produção, valorizando formas tradicionais e o cooperativismo e com papel importante da recém-criada Empresa de Apoyo a la Producción de Alimentos (EMAPA) e das chamadas “empresas sociais”; igualmente, nacionalizaram o setor energético ampliaram o investimento estatal em distintos setores produtivos. Neste período, a Bolívia (assim como muitos países da região) foi favorecida pelo aumento do preço das commodities no cenário global, o que permitiu aumentar também as reservas internacionais – que seriam fundamentais para financiar medidas anticíclicas e mitigar os impactos da crise internacional pós-2008.
Destarte, os governos MAS estabeleceram uma série de políticas de redistribuição de renda, similares a políticas como o Bolsa Família no Brasil. É o caso, por exemplo, do Bono Juana Azurduy, destinado às mulheres gestantes e crianças menores de dois anos; a Renta Dignidad, voltada aos idosos; e o Bono Juancito Pinto, análogo ao Programa Pé de Meia lançado pelo governo brasileiro em 2023. Assim como no caso brasileiro, estes programas beneficiam parcelas substanciais da população – estima-se que, em 2015, 45% da população boliviana era beneficiada por algum programa5 – e consolidaram-se como políticas de Estado. Ou seja: apesar dos constantes ataques discursivos da extrema-direita, sua suspensão tornou-se um desafio complexo.
Sob estas diretrizes, a Bolívia obteve avanços sociais importantes. O índice de Gini caiu de 0,62 em 2000 para 0,42 em 2018;6 a pobreza extrema, que atingia 39,9% dos bolivianos em 2003, caiu pela metade; o analfabetismo entre maiores de 15 anos, por sua vez, foi reduzido de 13% em 2001 para 2,8% em 2016. 7Igualmente, o país andino-amazônico sustentou índices de crescimento superiores à média sul-americana, sustentados centralmente pela renda extrativista mas com ganhos substanciais na pequena produção, no aumento do consumo interno e na geração de emprego e renda.
Outro eixo central do projeto de desenvolvimento encabeçado pelo MAS é a política para o lítio, um dos mais importantes minerais para a indústria mundial, especialmente na produção de baterias, carros elétricos e outros componentes eletrônicos. Por sua relevância industrial, o acesso e controle das reservas de lítio – assim como de outros minerais críticos como cobalto e as chamadas terras raras – desempenha papel central nas disputas geopolíticas mundiais e no debate político brasileiro, com a discussão sobre a criação de uma estatal, a Terrabrás,8 e a tramitação do PL dos minerais críticos.
Como parte do chamado “triângulo do lítio” – região que engloba o norte da Argentina e do Chile e o sul da Bolívia e que possui estimadamente 55% das reservas internacionais conhecidas9 – a Bolívia optou por seguir um caminho distinto de Argentina e Chile, onde a exploração está em mãos de multinacionais, em prol de uma política de desenvolvimento nacional e soberano. Desenhou-se, assim, um programa de industrialização do metal em três fases, evoluindo da exploração do carbonato de lítio e potássio para o desenvolvimento de capacidades nacionais de produção de baterias e carros elétricos.
Para a terceira fase deste programa, conduzido a partir de 2017 pela estatal Yacimientos de Litio de Bolívia (YLB), estabeleceu-se uma política de cooperação internacional com condições estritas, garantindo controle majoritário da estatal e transferência tecnológica. Neste cenário, a China, no período imediatamente anterior ao golpe de Estado de 2019, consolidou-se como parceiro protagonista, com projetos cujas projeções ultrapassavam 2 bilhões de dólares.10
Complementar ao pilar econômico do Proceso de Cambio está o pilar político, cuja expressão máxima é a Constituição de 2009 e a refundação do país enquanto Estado Plurinacional. Contra a resistência das oligarquias nacionais, especialmente vinculadas ao oriente boliviano e ao agronegócio e articuladas com a Casa Branca, o governo Morales soube capitalizar o momentum dos setores populares e apostou por enfrentar a crise do Estado em campo aberto.
A vitória da Constituinte – que expressou também a derrota de uma tentativa de golpe de Estado por parte das elites cruceñas e de Washington – significou o reconhecimento de uma Bolívia plural, pautada pela equidade e pela solidariedade. A nova Constituição reorganizou símbolos nacionais, reconhecendo a wiphala e introduzindo princípios do Bem-Viver; pautou a defesa da soberania nacional, proibindo bases estrangeiras em território boliviano e garantindo o protagonismo do Estado na exploração de recursos; e estabeleceu a convivência (naturalmente tensionada) entre distintos modelos produtivos. Além disso, abriu caminhos para o aumento da participação popular, tanto pela valorização das representações sociais (camponesas, indígenas, operárias, feministas) quanto pela ampliação social (especialmente de mulheres e indígenas) em toda a estrutura estatal.
Estes dois eixos – o econômico e o político – são os alicerces do Proceso de Cambio, que permitiram ao MAS reconfigurar a luta de classes na Bolívia e alcançar sucessivos êxitos eleitorais a nível nacional e regional, especialmente no chamado ocidente andino, região que contempla departamentos com o de Cochabamba e La Paz. Portanto, uma análise da crise do MAS demanda compreender as fissuras que se conformaram historicamente nestes dois pilares e como se traduziram no cenário político nacional.
A partir de 2018, a Bolívia começa a enfrentar um processo de desaceleração de sua economia. Dependente da renda extrativista, o país sofreu com a queda abrupta, a partir de 2014, dos preços internacionais de gás e petróleo, o que representou uma redução substantiva das reservas internacionais (de 15 bilhões de dólares em 2014 para 9,5 bilhões em 2019)11 e das divisas disponíveis para o investimento estatal. Contudo, para além do elemento conjuntural (que evidencia o caráter dependente de sua economia), neste período já começam a aparecer sinais de esgotamento das reformas promovidas pelos governos MAS, que se tornaram ainda mais notórios ao longo do governo de Luis Arce. Para García Linera,12 este esgotamento – ou encerramento de ciclo – do que chama de reformas de primeira geração demandava um novo impulso, com uma nova onda de reformas que buscasse avançar na superação dependência rentista, avançar na consolidação de novos setores produtivos e atualizar o projeto de desenvolvimento para a nova conjuntura nacional e internacional.
Na dimensão política, as tensões no Proceso de Cambio também se intensificaram no terceiro governo Morales. Para fins expositivos, podemos localizá-las em quatro pontos. Primeiramente, as tensões internas ao próprio bloco histórico, que desde 2007 se articula por meio da Coordinadora Nacional para el Cambio (CONALCAM), frente política que congrega distintos setores, movimentos, sindicatos e partidos populares sob evidente direção do MAS. Aqui figuram tanto tensões territoriais – como a notória tensão em torno da rodovia na Tierra Indígena y Parque Nacional Isiboro-Sécure (TIPNIS) – quanto disputas entre projetos nacionais distintos, especialmente com setores indigenistas como a CONAMAQ (então liderada por Felipe “El Malku” Quispe) e a Confederación de Pueblos Indígenas del Oriente de Bolívia (CIDOB).
Segundo, há um desgaste histórico do projeto de transformação nacional: após ascender das lutas populares e antineoliberais dos anos 1990 e 2000, o MAS governou a Bolívia por 19 anos – de 2006 até o golpe de novembro de 2019 e novamente de final de 2020 à 2025. Ao longo destas quase duas décadas, uma geração de bolivianos e bolivianas cresceu, estudou e ingressou no ensino superior e/ou no mercado de trabalho. Como aponta Mariñelarena,13 para esta geração, carente inclusive de uma memória social do período de pobreza e avanço neoliberal, o MAS não representa um ator de transformação social, mas um partido há quase 20 anos no poder num contexto de progressivo esgotamento econômico, social e até mesmo cultural.
Em terceiro lugar, apontamos para a reorganização da direita boliviana. Deslocada do controle estatal, as elites e setores conservadores buscaram fortalecer instrumentos de organização civil, como os Comitês Cívicos que se tornaram estruturas centrais para a articulação política e mobilização social. Tendo Santa Cruz como bunker, a direita – especialmente a extrema-direita – mobiliza o terror político contra a ascensão social de setores historicamente marginalizados, que passaram a acessar direitos, a terem condições mais dignas de reprodução da vida e a assumir posições de autoridade (ou até mesmo a configurar uma nova elite econômica). Esta narrativa atingiu – como atingiu no Brasil – de forma mais evidente a classe média branca boliviana, que viu as diferenças socioeconômicas com setores populares reduzirem ao mesmo tempo em que seu capital social histórico – pela cor de pele ou por sobrenome – passou a perder relevância. Em sintonia, nota-se mais recentemente o avanço de setores evangélicos – com destaque a figuras como o ex-candidato à presidência Chi Hyun Chung, proprietário de ao menos 70 igrejas evangélicas – que em muitos casos vêm fortalecendo discursos fundamentalistas e racistas e reforçando as fileiras organizadas da extrema-direita nacional.
Por fim, destacamos as tensões em torno do personalismo de Evo Morales. Elemento destacado da crise do MAS após 2020, já durante seu governo significou igualmente ponto de tensão no bloco de sustentação do Proceso de Cambio e erro político estratégico. A Constituição de 2009 estabelecia o limite de duas reeleições para o chefe do Estado; assim, para poder concorrer a um quarto mandato, Morales precisou submeter uma alteração constitucional via plebiscito. Em 2016, o plebiscito – que ficou conhecido como a disputa entre “Evo Sí” e “Evo No” – tornou-se campo de batalha entre o governo e a oposição que, internacionalmente articulada e por meio de uma robusta campanha de desinformação, impôs a primeira grande derrota ao Proceso de Cambio.
Evo conseguiria no ano seguinte, via decisão do TSE, autorização para concorrer ao pleito de 2019, sob alegação de “direito humano”. Para além da fragilidade jurídica desta autorização, a oposição passou à ofensiva, categorizando Morales como um ditador que, para manter-se indefinidamente no poder, instrumentalizou o Judiciário e desrespeitou o voto popular e a Constituição – que configuravam, até então, suas principais fontes de legitimidade política.
Todos estes elementos convergiram e se aprofundaram em uma conjuntura internacional complexa, categorizada pelo avanço da extrema-direita latino-americana (articulada diretamente com o projeto Trumpista) e pela crise da primeira onda progressista. Desgastado e geopoliticamente sitiado, o Proceso de Cambio sofreu, em 2019, um golpe de Estado racista e anti-popular, que foi internacionalmente articulado e estruturou-se a partir de dois eixos:14 a desobediência civil e a intervenção policial e militar.15 A derrubada de Morales e Linera estabeleceu um governo militarizado, que perseguiu militantes masistas, protagonizou os massacres de Senkata e Sacaba, censurou meios de comunicação, buscou desestruturar a cooperação internacional em torno do lítio e, no auge da pandemia de Covid, levou milhões de bolivianos à pobreza.16
Durante a consolidação do golpe de Estado, que teve como gatilho central a denúncia falaciosa de fraude eleitoral nas eleições de outubro, tanto o governo quanto os setores populares demonstraram-se atordoados. Alguns, como Quispe, inclusive reverberam as narrativas de fraude e de que Evo queria “eternizar-se no poder”. Contudo, as medidas anti-populares e a repressão do governo de Áñez e as inúmeras demonstrações racistas durante e após o golpe – ilustradas pelos ataques sistemáticos à wiphala – prontamente conformaram uma jornada de lutas demandando o respeito ao povo boliviano e a convocação de novas eleições. A partir das ruas, o campo popular construiu uma histórica unidade que garantiu a eleição de Arce e Choquehuanca e o retorno do MAS ao poder.
Esta unidade não demorou a ruir. Retornando de seu exílio na Argentina, Morales prontamente entrou em rota de colisão com seu ex-ministro e agora chefe de Estado. Em sua primeira composição ministerial, Arce optou por um distanciamento com nomes vinculados à Evo e por um perfil mais técnico. Em contrapartida, o ex-presidente buscou reassumir o controle político dos setores masistas e do partido, já sinalizando o desejo de retornar ao Palacio Quemado.
As tensões no MAS se aprofundaram nos anos seguintes ao passo em que a situação econômica da Bolívia se deteriorava. Como ex-ministro da Economia, Arce era visto como um dos protagonistas do “milagre econômico” dos governos de Morales e Linera e tal vinculação foi elemento-chave de sua eleição. Não obstante, Lucho herdou um país assolado pelas consequências da Covid e pelas medidas do governo de facto. Destarte, a crise dos hidrocarbonetos apronfudava-se: com a falta de investimentos produtivos visando a expansão da exploração, muitas reservas esgotaram-se e a atividade entrou em forte declínio: entre 2021 e 2023, a exportação de gás e petróleo caiu pela metade.17 Mais do que enfraquecer as divisas internacionais e ampliar o problema de escassez de dólares (numa economia cada vez mais dolarizada), a Bolívia passou a enfrentar grandes desabastecimentos e viu-se forçada a aumentar paulatinamente a importação de combustíveis. Igualmente, em 2025 a exploração do lítio registou-se a níveis inferiores a 20% da capacidade produtiva.18
A partir de 2023, o conflito aumenta. Evo, que já havia acusado Arce por perseguição política de seus aliados, passa a criticar de forma aberta o governo, apontando Lucho como um economista conservador e um administrador incapaz. Em junho, o presidente decide pela manutenção de Eduardo del Castillo – que viria a ser seu candidato nas eleições de 2025 – como ministro de governo após a Assembleia Nacional ter votado por sua censura – o que segundo interpretações da Constituição deveria implicar sua destituição. Aqui, já ficava evidente a conformação de um bloco parlamentar ligado à Evo e que adotaria uma posição de combate e oposição ao governo.
Neste sentido, as disputas entre os setores Evistas e Arcistas se desenvolverá em quatro frentes dialeticamente associadas. Em primeiro lugar, travou-se uma disputa entre Executivo e Legislativo, onde o bloco ligado à Evo, majoritário, fundamentalmente encabeçou a oposição parlamentar à Arce, chegando a travar medidas como empréstimos internacionais e projetos referentes à indústria do lítio.19
Segundo, houve uma disputa em torno do controle do partido. Em outubro de 2023, foi realizado um Congresso Nacional do MAS em Lauca Ñ, no departamento de Cochabamba. Conduzido por setores ligados à Evo – e com o boicote do setor oficialista, alegando subrepresentação – o Congresso referendou a posição de Morales como liderança do partido. Tal encontro, contudo, seria posteriormente anulado pelo TSE. Em 2024, setores Arcistas realizaram um Congresso próprio, expulsando Evo Morales e nomeando Grover Garcia, da Confederación Sindical Única de Trabajadores Campesinos de Bolívia (CSUTCB), como novo presidente; em resposta, novo Congresso Evista seria realizado, por sua vez expulsando Arce e o seu vice David Choquehuanca.20 A justiça boliviana eventualmente garantiria o controle do partido à Arce, porém tal disputa causou fissuras profundas nos setores componentes do instrumento e ajudou a pulverizar a disputa entre os dois dirigentes para toda a militância masista.
Terceiro, a partir de 2024 Evo Morales leva às ruas o conflito com o governo boliviano. Historicamente, a força dos movimentos populares na Bolívia se expressou através de grandes marchas – muitas vezes dirigindo-se do interior para La Paz – e pelos bloqueios de vias, buscando sitiar os centros urbanos. Em setembro, Evo convoca marchas para “salvar a Bolívia”, demandando mudanças ministeriais e na política econômica nacional e culpando o governo pelos desabastecimentos e pela crise. Tais marchas geraram distintos confrontos entre os setores Evistas e os ligados ao governo, principalmente a Central Obrera Boliviana (COB), deixando dezenas de feridos. Posteriormente, Morales convocou bloqueios especialmente em Cochabamba, aprofundando tanto o conflito com o governo nacional quanto a crise de desabastecimento.
Pouco antes deste período, outro evento abalou o cenário nacional. Chefe do Exército boliviano, o general Juan José Zúñiga afirmou que estava disposto a prender Evo caso tentasse ser candidato. Após alguns dias, Arce decidiu por sua destitiução. Como resposta, Zúñiga tentou operar uma confusa ofensiva militar contra a sede do Executivo, demandando ao fim sua restituição. Arce logrou conter a quartelada, prendeu Zúñiga e reestabeleceu a ordem nos setores castrenses.21 O ocorrido serviu também para colocar Arce e Evo de lados opostos: enquanto o presidente condenava a ação de Zúñiga, Morales – que inicialmente convocou a militância contra a tentativa de golpe – passou a acusar Lucho de um autogolpe visando aumentar sua popularidade.22
Por fim, em outubro de 2024 a justiça boliviana decretou ordem de prisão contra Morales em processo acerca de suposto caso de assédio sexual contra uma menina de 15 anos quando ainda era presidente. Evo afirmaria tratar-se de uma perseguição política e de instrumentalização do judiciário; rejeitando a ordem de prisão, estabeleceu um bunker em Chapare apoiado por setores camponeses e sindicais. Em 27 de outubro, seu comboio sofreu um ataque armado por homens não identificados. Prontamente, Morales acusou Arce de ordenar uma tentativa de assassinato contra ele, utilizando-se de setores paramilitares.23 O litígio jurídico teria ainda dois capítulos importantes: a juíza Lilian Moreno revogou, em abril de 2025, a prisão de Evo; dias após a revogação, a própria juíza foi detida administrativamente por 30 dias por atos de desobediência e descumprimento da Constituição.24
A eleição de Rodrigo Paz e o futuro da Bolívia
É neste cenário de conflitos urbanos, disputas institucionais e processos judiciais que o MAS dirigiu-se às eleições presidenciais de 2025 profundamente dilacerado. De um lado, um presidente que, originalmente apresentado como herdeiro do desenvolvimento econômico e social dos governos anterior, viu-se sitiado pelas próprias bases de sustentação do Proceso de Cambio e demonstrou-se incapaz de lidar com a crise econômica e social. De outro, o líder popular (caudilho para alguns), com importantes bases de apoio mas apartado da gestão do Estado, processado judicialmente e impedido de concorrer às eleições pelo Tribunal Constitucional Plurinacional, que concluiu pelo limite de duas reeleições para o cargo de presidente. Tal decisão não o impediu de seguir buscando caminhos para sua postulação, chegando a fundar novo partido – o Estamos Volviendo Obedeciendo al Pueblo, cuja sigla EVO PUEBLO não deixava dúvidas sobre quem o encabeçava.
Entre os dois, buscava despontar a jovem liderança Andrónico Rodríguez, pupilo de Evo e presidente do Senado que tentou distanciar-se da disputa entre os dois dirigentes e consolidar-se como futuro do projeto masista. Os três projetos seriam efetivamente desafortunados: Arce, pouco carismático e muito desgastado, indicou pelo MAS a candidatura de Eduardo del Castillo; Evo, impedido de concorrer, defendeu o voto nulo que cresceu de 3,5% em 2020 para 19% em 2025, demonstrando que ainda possuía grande lastro eleitoral.25 Andrónico seria relativamente o melhor sucedido, mas viu-se forçado a concorrer por outro partido, a AP; igualmente, não conseguiu posicionar sua candidatura ao mesmo tempo como descendente do projeto de Morales mas distante do líder e de seu atual desgaste.
A direita boliviana, contudo, logrou reorganizar-se para o pleito. Ao longos das pesquisas eleitorais, o ex-empresário do ramo da construção civil Samuel Doria Medina despontava como favorito, apostando em um discurso de enfrentamento ao Proceso de Cambio, de distanciamento das “ditaduras” latino-americanas, de aproximação com os EUA e de impedir que a Bolívia virasse uma “nova Venezuela”. Todavia, o segundo turno inédito desde a nova Constituição foi travado entre o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga e o senador Rodrigo Paz, que se consagraria vencedor com 55% dos votos.
As eleições presidenciais consolidaram a crise estrutural do progressismo boliviano e do projeto do MAS. Destarte, pautou-se pela disputa entre dois projetos de direita: de um lado, Quiroga, representante da extrema-direita. Ex-ministro de Áñez e apoiado pelos setores do oriente boliviano, Tuto Quiroga buscou firmar-se como o Milei da Bolívia, afirmando que, para além de motoserras, usaria machetes e tesouras.26 De outro, a candidatura surpresa das eleições de Rodrigo Paz, que apostou em uma espécie de “terceira via” frente a polarização entre o MAS e a extrema-direita.
Paz construiu sua campanha sob a bandeira de “capitalismo para todos”, defendendo a manutenção de políticas sociais ao passo que pautava a reestruturação da economia boliviana e o desenvolvimento do comércio e da indústria. Da mesma forma, defendeu a modernização do Estado, superando a má-gestão e a corrupção e, apontou para uma superação da polarização nacional e dos enfrentamentos (incluindo bloqueios e paralisações) em prol de uma reconstrução da Bolívia – ideia sintetizada pela expressão “as ideologias não dão de comer”.27
Além disso, Paz contou com um importante apoio de seu candidato a vice Edman Lara. Ex-policial e comerciante urbano, Lara ganhou notoriedade nacional nas redes sociais congregando duas pautas latentes: o combate à corrupção e as dificuldades enfrentadas pelos pequenos e médios empreendedores bolivianos. Para Martínez28 e para Linera,29 a eleição de Rodrigo Paz se consolidou por uma migração do voto no ocidente andino, onde historicamente o MAS possuía hegemonia. Esta migração representou uma cooptação ou vinculação pragmática, decorrente do desgaste histórico do MAS, das fissuras internas no campo progressista e por um cansaço social aguçado, resultado de anos de confrontamento político e do aprofundamento da crise política.
Podemos sintetizar os primeiros meses do governo de Rodrigo Paz em três pontos. Primeiramente, o governo instituiu o decreto 5503, que apresentava diversas medidas econômicas nos moldes da agenda apresentada nas eleições. Dois grupos de medidas se destacaram: de um lado, a ampliação dos programas de redistribuição de renda, reajustando bonos e o salário mínimo; de outro, retirou subsídios nos preços do gás e dos combustíveis. Assim como no Paquetazo no Equador em 2019 ou o Caracazo em 1992, a impopularidade e os grandes impactos sociais no reajuste dos preços de combustível resultaram em grandes protestos, que na Bolívia foram protagonizados pela COB. O governo viria a revogar a suspensão dos subsídios, mas manteve as demais medidas, incluindo as políticas de austeridade.30
Em segundo lugar, Paz fez demonstrações importantes em suas primeiras viagens internacionais. Ao visitar o Brasil, que qualificou como principal parceiro estratégico da Bolívia, o presidente reforçou sua narrativa de governar para além das ideologias. No encontro com Lula, celebrou acordos em áreas como infraestrutura e turismo.31 No sentido oposto, Paz participou do Escudo para as Américas na Flórida, iniciativa do governo Trump para coordenar a agenda de segurança internacional na América Latina.
Por fim, Rodrigo Paz demonstrou que o projeto anti-MAS segue vigente. Ainda em janeiro, seu governo retirou do ar em território nacional, sem maiores explicações, a TeleSUR e a RT32 – canais que já haviam sido censurados pelo regime de Jeanine Áñez e que cumpriram papel importante na denúncia do golpe em 2019. De modo similar, a justiça boliviana, que demonstrou no último período movimentar-se em consonância com o Executivo, determinou no início de abril a prisão de Luis Arce por investigações de corrupção envolvendo seu período como ministro – Arce declarou ser um preso político.33 Mesmo com tais medidas de perseguição dos setores populares, a extrema-direita – que chegou a afirmar que Paz era um “socialista disfarçado”34 – já demonstra-se insatisfeita com o novo governante, cobrando medidas mais duras tanto no avanço neoliberal quanto no combate ideológico.
A atual conjuntura boliviana, condicionada também pela complexa conjuntura regional e mundial, é bastante distinta do período anterior à 2019. Mesmo derrotando um golpe militar nas urnas, os setores populares demonstram hoje uma incapacidade de superar os litígios internos e reposicionar-se de forma efetiva no tabuleiro político nacional. Mais do que isso, o horizonte político e estratégico que norteou o Proceso de Cambio, somado ao desgaste histórico, está em descompasso com a atualidade da luta de classes no país, que hoje é pautada por um cansaço social, pela crise econômica, pela fragmentação política (tanto da esquerda quanto da direita), pela ausência de expectativas para o futuro e pela ameaça constante do fascismo.
A Bolívia, sob direção de um governo que tenta contornar a polarização e superar o projeto masista, tem no horizonte atual um cenário de forte instabilidade, onde o “milagre econômico” e a estabilidade política parecem memórias longínquas. Para os setores populares no país, será necessário um balanço profundo e estruturado dos erros estratégicos e problemas políticos que resultaram neste cenário para que seja possível enfrentar o novo ciclo, reorganizar sua força social e apresentar novamente ao povo boliviano um projeto de país capaz de superar a crise (econômica, política e também ambiental) e avançar no desenvolvimento econômico e social.
P.S: No começo de maio, iniciou-se uma jornada nacional de mobilizações contra o governo de Rodrigo Paz. O estopim foi a convocação de greve geral por parte da COB, após negociações frustadas com o governo boliviano. Desde então, os protestos têm se expandido, com vigílias e bloqueios de vias, e os confrontos com as forças de segurança já deixaram mais de 40 pessoas ferias. No dia 18 de maio, o Procurador-geral emitiu um mandado de prisão contra o secretário-executivo da COB Mario Argollo, utilizando-se de acusações comumente instrumentalizadas para a repressão de sindicatos e movimentos sociais, como terrorismo e de incitação ao crime. Sem fim à vista, a greve geral na Bolívia reforça nossa análise sobre a profundidade da crise social, a instabilidade política nacional e os perigos representados pelo governo Paz aos setores populares na Bolívia.
- MERCADO, Hugo Moldin. Golpe de Estado en Bolivia: la soledad de Evo Morales. Havana: Ocean Sur, 2020. ↩︎
- LINERA, Álvaro García. Tensões criativas da revolução: a quinta fase do processo de transformação. São Paulo: Expressão Popular, 2019. ↩︎
- Empresa estabelecida nos anos 1930 mas que passou por processo de capitalização durante os anos 1990, reduzindo o controle estatal – similar ao que ocorreu com a PDVSA na Venezuela. ↩︎
- VALENÇA, Daniel Araújo. Disjuntivas do processo de cambio: o avanço das classes subalternas, as contradições do estado plurinacional da Bolívia e o horizonte do socialismo comunitário. 404 pf. Tese (doutorado) – Programa de Pós- Graduação em Ciências Jurídicas, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2017. ↩︎
- MARIÑELARENA, Rebeca Peralta. Bolívia há doze anos do processo de mudança: desafios, apostas e riscos. In: SANTOS, R.S.; VILLAREAL, M.; PITILLO, J. C. América Latina na encruzilhada: lawfare, golpes e luta de classes. São Paulo: Autonomia Literária, 2020. ↩︎
- COSTA, Luiza Calvette. O golpe (é) de Estado: o caso do golpe de 2019 na Bolívia. 163f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados sobre as Américas, Universidade de Brasília, Brasília, 2022. ↩︎
- MARIÑELARENA, op. cit. ↩︎
- BREDA, Diógenes Moura. Terrabras e as ideias verdadeiramente fora de lugar. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/terrabras-e-as-ideias-verdadeiramente-fora-de-lugar/ ↩︎
- CÉSPEDES, Lucía; GORRITTI, Jacinta. Neoextractivismo y neodesarrollismo. Actores y disputas en torno a la extracción del litio en Bolivia. NuestrAmérica, Concepción, v. 9, n. 18, edição contínua, 2021. ↩︎
- UGARTECHE, Oscar; NEGRETE, Armando. Aproximaciones desde la geoeconomía al golpe e Estado en Bolivia. In: LAJTMAN, T. et al (org.). Bolivia y las implicaciones geopolíticas del golpe de Estado. Ciudad de México: Universidad Nacional Autónoma de México; Buenos Aires: CLACSO, 2021. ↩︎
- MARTUSCELLI, Danilo Enrico. Entrevista con Álvaro García Linera sobre los retos de la izquierda en Bolivia y América Latina. Crítica Marxista, [S.L.], v. 32, n. 58, p. 101-122, 27 mar. 2025. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – UNICAMP. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- MARIÑELARENA, op. cit. ↩︎
- Este modus operandi consolidou o que Francisco Carlos Teixeira da Silva e Karl Schurster vão denominar de “método Bolívia” de golpes de Estado, que serviria de inspiração direta para os atos de 08 de janeiro em Brasília. Ver SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; SCHURSTER, Karl. Os passageiros da tempestade: fascistas e negacionistas no tempo presente. Recife: Cepe, 2022. ↩︎
- Em minha dissertação de mestrado, busco desenvolver sobre a estruturação do golpe militar de 2019, situando-a no contexto internacional e compreendendo a luta de classes na Bolívia. Ver Beirith, Victor. Entre wiphalas e fuzis: a estruturação do golpe de Estado na Bolívia em 2019. 172 p. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Sócio-Econômico, Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais, Florianópolis, 2024. ↩︎
- OLIVA, Nicolás; MANCILLA, Alfredo Serrano. Millones de nuevos pobres en Bolivia. Disponível em: https://www.celag.org/millones-de-nuevos-pobres-en-bolivia/ ↩︎
- RUBINZAL, Diego. La battala interna del MAS. Disponível em: https://www.pagina12.com.ar/778928-la-batalla-interna-del-mas/ ↩︎
- FRANCE 24. Bolivia: de milagro económico regional a economía en cuidados intensivos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pRY1VWVggx8&list=WL&index=7. ↩︎
- BOLIVIA PRIMERO. El evismo bloqueará los contratos del litio en el Senado. Disponível em: https://boliviaprimero.com/2025/02/11/el-evismo-bloqueara-los-contratos-del-litio-en-el-senado/ ↩︎
- RUBINZAL, op. cit. ↩︎
- BBC MUNDO. Quién es Juan José Zúñiga, el general que lideró lo que el presidente de Bolivia calificó de “intento de golpe de Estado” y luego fue arrestado. Disponível em: https://www.bbc.com/mundo/articles/c035jg3j13ro ↩︎
- CNN ESPAÑOL. Evo Morales acusa a Luis Arce de gestar un autogolpe y de mentirle al mundo entero. Disponível em: https://cnnespanol.cnn.com/2024/06/30/evo-morales-acusa-luis-arce-gestar-un-autogolpe-estado-mentirle-al-mundo-orix/ ↩︎
- AFP. Intentan asesinar a Evo Morales. Disponível em: https://www.jornada.com.mx/noticia/2024/10/27/mundo/acusa-evo-morales-que-sufrio-intento-de-asesinato-4088. ↩︎
- CNN ESPAÑOL. Detienen en Bolivia a la jueza que anuló la orden de arresto contra el expresidente Evo Morales. Disponível em: https://cnnespanol.cnn.com/2025/05/06/latinoamerica/fiscalia-bolivia-detencion-jueza-arresto-evo-morales-orix. ↩︎
- STEFANONI, Pablo; VELÁSQUEZ. El MAS boliviano: ¿un colapso sin pena ni gloria?. In: Nueva Sociedad, Nº 319, p. 4-16, set-out 2025. ↩︎
- Ibid. ↩︎
- COTARI, Cristina. “Las ideologías no dan de comer”: Las frases destacadas de Rodrigo Paz en el Foro CAF 2026. Disponível em: https://www.reduno.com.bo/economia/las-ideologias-no-dan-de-comer-las-frases-destacadas-de-rodrigo-paz-en-el-foro-caf-2026-202612811500 ↩︎
- MARTÍNEZ, Carolina Belén. La fragmentación del MAS y la nueva geografía política en Bolivia. Revista Integración y Cooperación Internacional, [S.L.], n. 42, p. 98-106, 2 jan. 2026. Universidad Nacional de Rosario ↩︎
- MARTUSCELLI, op. cit. ↩︎
- COTARI, Cristina. Conozca los 32 artículos del Decreto Supremo 5516 que ya está vigente. Disponível em: https://www.reduno.com.bo/noticias/conozca-los-32-articulos-del-decreto-supremo-5516-que-ya-esta-vigente-2026113164214 ↩︎
- INFOBAE. Lula da Silva y Rodrigo Paz acordaron tender una línea eléctrica entre Bolivia y Brasil. Disponível em: https://www.infobae.com/america/mundo/2026/03/16/lula-da-silva-y-rodrigo-paz-acordaron-tender-una-linea-electrica-entre-bolivia-y-brasil/ ↩︎
- TELESUR. Denuncian en Bolivia “atentado a la libertad de prensa” tras censura a teleSUR y RT. Disponível em: https://www.telesurtv.net/denuncian-bolivia-censura-telesur-rt/. ↩︎
- TELESUR. Expresidente Arce se declara preso político y denuncia al Gobierno y justicia de Bolivia. Disponível em: https://www.telesurtv.net/expresidente-arce-preso-politico-bolivia/ ↩︎
- STEFANONI; VELÁSQUEZ, op. cit. ↩︎



