A Decapitação Imperialista: O Petróleo Venezuelano e o Futuro da Revolução Bolivariana.

Por Brenna Paula Gomes Tavares (Feminista, Integrante da Executiva Nacional do PSOL, da Secretaria Operativa da Ação Negra, é militante internacionalista e participou do “Encontro da Brigada Internacional Cília Flores” em Caracas, em março de 2026) e Fábio Nogueira (Sociólogo, Professor Adjunto da UNEB e militante da Ação Negra).

Todos observaram atônitos na madrugada do dia 3 de janeiro de 2026 a operação militar “Operação Resolução Absoluta” (Operation Absolute Resolve) desencadeada pelo governo Trump sobre Caracas, que redundou no sequestro de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cília Flores, além do assassinato de dezenas de militares cubanos e venezuelanos e civis venezuelanos.

A operação foi liderada pela Delta Force — tropa de elite do Exército dos EUA — que treinou por meses em bases clandestinas, reconstruindo os passos do líder venezuelano. O cerco a Caracas contou com o mais alto nível tecnológico já visto em uma ação militar na América Latina: o 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (SOAR) “Night Stalkers”, aeronaves MH-47 Chinook e MH-60, além de caças F-22 Raptor, F-35 Lightning II, bombardeiros B-1 Lancer e uma frota de drones de última geração, empregando técnicas inéditas de bloqueio de radares e supressão de defesas aéreas.

O general Daniel Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, revelou em coletiva que a ação envolveu 150 aeronaves partindo de 20 bases militares em todo o Hemisfério Ocidental. “Foi uma operação audaciosa que somente os Estados Unidos poderiam executar”, declarou o general, acrescentando que o planejamento levou meses e contou com inteligência da CIA e da NSA para mapear “onde Maduro vivia, para onde viajava, o que comia, o que vestia”. O sucesso da operação trumpista, que durou cerca de “seis minutos” no alvo principal, contou com a cumplicidade de setores da comunidade internacional que há anos apoiam o cerco político e econômico à Venezuela. Este é um dado importante: o silencio de setores da esquerda internacional – inclusive no Brasil – desde que em setembro os EUA começaram a atacar embarcações na costa da Venezuela até o fechamento do espaço aéreo venezuelano e o bloqueio e confisco do tráfico de petroleiros vindo e indo daquele país, contribuiu para que Trump partisse para uma agressão militar aberta contra o mandatário venezuelano.

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Fontes da agência Reuters e da CNN revelaram detalhes impressionantes da preparação. As tropas de elite dos EUA criaram uma réplica exata do esconderijo de Maduro em solo americano, onde ensaiaram exaustivamente a entrada na residência fortemente fortificada do líder venezuelano. A CIA mantinha uma pequena equipe na Venezuela desde agosto de 2025, que forneceu informações cruciais sobre os padrões de vida e deslocamentos de Maduro. Mais do que isso: fontes afirmam que a agência tinha um “ativo” próximo a Maduro — um infiltrado — que monitorava seus movimentos e estava pronto para identificar sua localização exata no momento da operação. Às 22h46 do dia 2 de janeiro (horário de Washington), Trump deu o aval final. Dois minutos depois da meia-noite em Caracas, as primeiras explosões começaram. Aviões de guerra sobrevoaram a capital em baixa altitude, enquanto um comboio de helicópteros das forças especiais se dirigia ao complexo presidencial. A cidade foi propositalmente mergulhada na escuridão por meio de interrupção deliberada do fornecimento de energia pelas forças americanas.

Maduro e sua esposa tentaram chegar a uma sala segura, mas não conseguiram fechar a porta a tempo. Renderam-se sem resistência, segundo o relato oficial. Foram vendados, algemados, vestidos com agasalhos cinza e levados a bordo do USS Iwo Jima, de onde Trump mesmo publicou a foto que correu o mundo. Exibido como um troféu por Trump, a foto de Maduro representava a materialização da American First, Nova Estratégia de Segurança e Política Externa dos EUA, recentemente divulgada.

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O saldo oficial da operação, divulgado semanas depois, é estarrecedor: 23 ou 24 militares venezuelanos mortos, 32 militares e pessoal de segurança cubanos assassinados, e 2 civis venezuelanos. Do lado americano, 7 soldados ficaram feridos, mas nenhum morreu. Logo houve confrontos, o que desmente a afirmação de que Maduro e Cília foram entregues sem nenhuma resistência.

A comoção em Cuba foi imediata. O governo de Miguel Díaz-Canel declarou luto nacional e repatriou os corpos dos 32 militares mortos, transformando a tragédia em “coragem nacionalista” diante da agressão imperialista. A Venezuela, por sua vez, ficou em estado de choque. A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu interinamente e exigiu “prova de vida” de Maduro em uma mensagem de áudio transmitida pela televisão estatal. Quando confirmada a prisão de Maduro e Cília, a estratégia do governo chavista foi manter a normalidade de funcionamento das instituições para evitar um “vazio de poder” que animasse a oposição a intentos golpista. Como “vice-presidente encarregada”, Delcy assumiu a presidência de um país devastado economicamente por um bloqueio econômico, cercado militarmente e com o mandatário do país preso para ser julgado em um processo fraudulento por tráfico de drogas e um tribunal estadunidense.

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O sucesso da operação trumpista não se deu no vácuo. Ele foi possibilitado por anos de cerco político, econômico e midiático contra a Venezuela — um cerco que contou com a cumplicidade ativa ou passiva de grande parte da comunidade internacional.

A União Europeia foi uma das primeiras a se pronunciar. Kaja Kallas, chefe da política externa do bloco, disse que “a UE afirmou repetidamente que Maduro carece de legitimidade e defendeu uma transição pacífica”, ao mesmo tempo em que pedia que “os princípios do direito internacional e da Carta da ONU sejam respeitados”. Uma contradição em termos: como respeitar o direito internacional enquanto se aplaude ou se silencia diante de uma invasão militar unilateral?

O presidente da França, Emmanuel Macron, foi além: declarou que o povo venezuelano “está hoje libertado da ditadura de Nicolás Maduro”. Seu ministro das Relações Exteriores, no entanto, condenou a operação como violação do direito internacional. Mais uma contradição no coração da velha Europa.

Na América Latina, as reações se dividiram ao longo das linhas ideológicas. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, expressou “profunda preocupação” e rejeitou “qualquer ação militar unilateral que possa agravar a situação ou colocar em risco a população civil”. O Chile, o então presidente Gabriel Boric, “condenou as ações militares dos EUA”. O presidente Lula, do Brasil, afirmou que os ataques “ultrapassaram uma linha inaceitável” e classificou o conflito como “perigoso para toda a comunidade internacional”. Já a Argentina de Javier Milei celebrou: “A liberdade avança. Viva a liberdade, caralho”, publicou o presidente em sua rede social. O secretário-geral da ONU, António Guterres, manifestou “profunda preocupação” e alertou que os acontecimentos abrem “um precedente perigoso” para a ordem internacional. No mais, tudo isso contribuiu para que Trump mirasse em outros alvos, o Irã e em Cuba e levasse a sua política externa de American First a uma ofensiva que se propõe a redesenhar o tabuleiro geopolítico nos próximos anos.

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Não bastasse a política de embargo econômico — que remonta ao governo de Barack Obama — e o contínuo cerco político à Venezuela, Trump levou a guerra imperialista contra Maduro ao limite do suportável. Mas por quê?

A resposta está no subsolo venezuelano. O país detém as maiores reservas de petróleo conhecidas do mundo: mais de 300 bilhões de barris. Em dezembro de 2025, Trump já havia exigido, em sua rede Truth Social, que a Venezuela devolvesse todo o “petróleo, terras e outros bens que nos foram roubados anteriormente” — uma referência direta às expropriações do governo Chávez em 2007. Horas após a captura de Maduro, Trump foi direto: disse que os Estados Unidos “governariam a Venezuela por um período de tempo” e que empresas americanas “venderão grandes quantidades de petróleo para outros países”.

Mas não é apenas o petróleo. A Venezuela possui vastas reservas de terras raras, elementos essenciais para a produção de smartphones, baterias de veículos elétricos, mísseis de precisão e tecnologia militar de ponta. Em um mundo cada vez mais dominado pela transição energética e pela corrida tecnológica, controlar essas reservas é tão estratégico quanto controlar o petróleo. O governo Trump sabe disso e, nos bastidores, já articula com empresas americanas a exploração desses recursos, pressionando Delcy Rodríguez a abrir mão do controle estatal sobre a mineração.

A força e a resiliência do governo chavista, apesar dos ataques sistemáticos ao seu sistema político e econômico, fez com que Trump considerasse uma ação de “decapitação política” o meio mais eficaz para atingir seu objetivo: apossar-se do petróleo e das terras raras venezuelanas e afastar esta importante riqueza da China e da Rússia — os dois principais aliados internacionais de Maduro.

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A disputa pela Venezuela sempre foi, também, uma disputa entre grandes potências. A China importava cerca de 600 mil barris por dia da Venezuela antes da invasão, e o país devia a Pequim entre 60 e 70 bilhões de dólares. O petróleo venezuelano, especialmente o cru Merey 16, é estratégico para as refinarias asiáticas. E o mais importante: a Venezuela negociava com Pequim em moeda nacional chinesa, o que aceleraria a tendência de desdolarização da economia mundial.

A Rússia, por sua vez, era a maior fornecedora de armas para a Venezuela. Em 2019, quando Maduro enfrentou sua maior crise até então, Moscou enviou dois aviões militares com soldados e equipamentos, forçando os EUA a negociar diretamente com os russos sobre a América Latina pela primeira vez desde a Crise dos Mísseis em Cuba. No entanto, a Rússia demorou a reagir. O apoio se limitou a declarações verbais.

A estratégia imperialista fica mais evidente quando se observa que o mesmo roteiro foi seguido em relação ao Irã, mas esbarrou na força e organização do estado persa, seja em termos políticos como militares. Contra a Venezuela, fragilizada por anos de sanções e crise econômica, a operação foi parcialmente bem-sucedida. O PSUV ainda continua no poder. Mas a que preço?

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É preciso ter lucidez para analisar o momento vivido por Delcy Rodríguez. Muitos a criticam, acusam-na de “entreguista”, de estar vendendo o patrimônio nacional aos americanos. Mas que escolhas ela tem?

O governo Trump monitora e vigia cada passo do governo bolivariano. Agentes da CIA e do FBI circulam abertamente em Caracas. Telefones são grampeados. Reuniões de ministros são acompanhadas à distância por drones e satélites. Há relatos de que assessores diretos de Delcy recebem ligações de números de Washington com recados explícitos: “aprovamos” ou “não aprovamos” determinadas medidas. A chantagem é constante e explícita.

Ao mesmo tempo, Delcy busca equilibrar as contas de um país alquebrado por uma guerra econômica sem precedentes. Os ativos internacionais da Venezuela continuam bloqueados — são bilhões de dólares congelados em bancos internacionais. O país não pode acessar seu próprio dinheiro. A produção de petróleo, que já foi de 3 milhões de barris por dia, caiu para menos de 800 mil. A inflação, embora controlada em relação aos picos da hiperinflação de 2018-2019, ainda corrói o poder de compra da população. Há um cansaço da população com a situação econômica e a instabilidade política. O desgaste por anos de pressão e guerra econômica vindos dos EUA e da extrema direita venezuelana se fazem sentir.

Neste cenário, Delcy Rodríguez não tem muitas opções. Aprovar a lei que dá às empresas privadas o controle sobre a produção e venda de petróleo não foi um ato de “traição” ao legado chavista, mas sim um ato de sobrevivência. Sem investimento estrangeiro, a infraestrutura petrolífera venezuelana continuará a se deteriorar. Sem dólares entrando no país, não há como importar alimentos, medicamentos, insumos básicos. Sem acordo com os americanos, a asfixia econômica continuaria.

Há quem a chame de “entreguista”. Mas seria mais justo chamá-la de realista. Em um mundo ideal, a Venezuela manteria o controle soberano de seu petróleo e de suas terras raras, negociaria com quem bem entendesse e construiria o socialismo do século XXI sem interferência externa. Mas o mundo não é ideal. O mundo é o mundo e nele, os Estados Unidos invadiram Caracas, sequestraram o presidente, mataram dezenas de pessoas, e deixaram claro que estão dispostos a fazer muito pior se a Venezuela não se submeter. O governo venezuelano sabe que, se disputasse uma eleição hoje contra a opositora María Corina Machado, provavelmente seria derrotado. Precisa de tempo — tempo para estabilizar a economia, para atrair investimentos, para reconstruir uma base de apoio. E esse tempo está sendo comprado com petróleo. Será essa a melhor estratégia? Só o tempo dirá.

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No entanto, seria um erro reduzir o governo de Delcy Rodríguez à mera submissão aos interesses americanos. Há, em sua atuação, gestos que revelam uma tentativa de preservar o núcleo duro do legado chavista, mesmo sob fogo cerrado.

O exemplo mais emblemático ocorreu em 8 de março de 2026, quando o governo venezuelano, em conjunto com os movimentos de mulheres de mais de 27 países, lançou uma campanha internacional de solidariedade a Cília Flores. A primeira-dama, presa em Nova York ao lado do marido, foi transformada em símbolo da resistência feminina contra o imperialismo. Delcy Rodríguez discursou na Plaza Bolívar, em Caracas, diante de milhares de mulheres, denunciando as condições desumanas da prisão de Cília e exigindo sua libertação imediata. A campanha repercutiu em redes sociais e em movimentos feministas de diversos países, que viram na detenção de Cília Flores um ato de violência política de gênero perpetrado pelo governo Trump.

Não foi um gesto vazio, ao colocar Cília Flores no centro da agenda internacional, Delcy Rodríguez conseguiu três coisas: primeiro, humanizou a figura do casal preso, desmontando a narrativa americana de que Maduro e sua esposa seriam meros “narcotraficantes”; segundo, mobilizou a base feminina do chavismo, historicamente organizada e atuante; terceiro, constrangeu os EUA, que tiveram que responder a perguntas incômodas sobre o tratamento dado à ex-primeira-dama.

Paralelamente, Delcy Rodríguez ampliou os mecanismos de consulta e participação popular. Em fevereiro de 2026, lançou o programa “Comuna em Ação”, que descentralizou recursos para os conselhos comunais e ampliou o poder de decisão das comunidades sobre obras e serviços públicos. Foram criados 2.300 novos conselhos comunais em todo o país, com orçamento próprio proveniente de uma parcela da receita do petróleo negociado com empresas americanas.

É pouco. É insuficiente diante da magnitude da crise. Mas é algo. E em um país sitiado, qualquer espaço de participação popular que se preserva é uma vitória. O chavismo sempre se definiu como um “governo de rua”, um “governo do povo”. Delcy Rodríguez, ainda que pressionada, tenta manter essa essência viva — não por nostalgia, mas porque sabe que sem o povo organizado, o regime não terá forças para resistir à próxima investida imperialista.

O futuro da Venezuela é incerto. O governo Trump já anunciou que grandes empresas petrolíferas americanas irão ao país “gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura quebrada e começar a ganhar dinheiro”. As terras raras estão na mira das gigantes de tecnologia americana. A pressão para que a Venezuela abra mão do controle estatal sobre esses recursos é imensa.

A grande incógnita é: e se Trump perder as eleições de novembro de 2026? Dentro do chavismo, especula-se que uma eventual derrota do republicano poderia afrouxar a tutela americana sobre a Venezuela. Até lá, no entanto, Delcy Rodríguez segue um caminho arriscado: vender o petróleo para ganhar tempo, ampliar a participação popular para manter a base mobilizada, internacionalizar a solidariedade a Cília Flores para constranger os EUA, tudo isso na esperança de que os ventos da história mudem.

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A invasão militar dos EUA à Venezuela em 3 de janeiro de 2026 não foi um ato isolado de “justiça” contra um “ditador narcotraficante”. Foi uma ação imperialista clássica — do tipo que a humanidade acreditava ter superado com o fim da Guerra Fria. Seu objetivo declarado, nas próprias palavras de Donald Trump, é o controle do petróleo e das terras raras venezuelanas. O precedente é perigoso para toda a América Latina e para o mundo. Se os EUA podem invadir um país soberano, capturar seu chefe de Estado, assassinar dezenas de pessoas e justificar tudo com acusações não comprovadas de narcotráfico, então nenhum país está seguro.

A comunidade internacional, que tantas vezes invocou o direito internacional para condenar Rússia ou China, mostrou-se incapaz ou desinteressada  em aplicar os mesmos princípios quando o violador são os Estados Unidos. A União Europeia pediu “contenção”. A ONU manifestou “preocupação”. A OEA, mais uma vez, silenciou.

Neste contexto, o governo de Delcy Rodríguez merece ser analisado com menos simplismo e mais contexto. Sim, ela fez concessões. Sim, abriu mão do controle estatal sobre o petróleo. Sim, negocia com o psicopata que apontou uma arma para seu país. Mas que alternativa tinha? A guerra aberta, que destruiria completamente a Venezuela e mataria centenas de milhares de civis?

Delcy Rodríguez escolheu o caminho da sobrevivência. E dentro desse caminho, tenta preservar o que pode: mantém viva a agenda chavista por meio da participação popular, lança campanhas internacionais de solidariedade, amplia os conselhos comunais, resiste simbolicamente onde não pode resistir materialmente. Resta saber se o povo venezuelano, que já resistiu a tantas adversidades, compreenderá a complexidade do momento — ou se entregará ao discurso fácil da oposição, que chama Delcy de “traidora” enquanto aplaude a invasão americana. A pergunta que fica é: Que outros países latino-americanos ricos em recursos naturais serão os próximos? E, mais importante: estarão preparados para resistir?

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Fábio Nogueira de Oliveira

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