Os bombardeios realizados no noroeste da Nigéria pelas forças do AFRICOM (Comando Africano dos Estados Unidos) no dia de Natal de 2025 foram a primeira incursão militar direta dos Estados Unidos na África Ocidental desde a sua criação em 2008. Essas ações, que supostamente renovam a ”Guerra ao Terror” a partir de uma operação propagandística, expõem um quadro estratégico grave para a África, humilham a mais importante potência em ascendência no continente, e mostram que a Casa Branca não vai abrir mão de flexionar os músculos para demonstrar e impor a sua supremacia sobre outros países, especialmente no Sul-Global. Contudo, o fato mais importante é o claro delineamento de uma estratégia de incursão e intervenção na área visando fortalecer aliados históricos, controlar a cadeia de suprimentos de elementos como o petróleo, ouro e metais raros, e conter o impacto e a crescente influência do Triângulo do Sahel, composto por Mali, Níger e Burkina Faso, que têm recentemente construído um importante eixo político no continente.
Alguns meses antes da ação militar do AFRICOM, os grupos terroristas Frente de Libertação do Azawad (FLA) e o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) intensificaram os ataques contra o Mali, o Níger e o Burkina Faso, e ampliaram a sua presença no noroeste da Nigéria e em Benin. Essa ofensiva não apenas visava minar estes Estados, mas sobretudo facilitar um processo de crise política interna através de um estrangulamento econômico e político, que soma-se à estratégia da França para retomar a sua supremacia regional após as rupturas políticas precipitadas pelos movimentos militares e populares nacionalistas no Triângulo do Sahel. A expansão recente dos grupos terroristas na África Ocidental e em outras regiões do continente tem levado os Estados africanos a diversificarem as suas parcerias ao longo dos últimos anos, especialmente no campo da segurança, por considerarem a França um ator desestabilizador e ameaçador para o continente. A Rússia tem sido um dos principais países nesse âmbito por causa da série de acordos bilaterais com relação a energia, agricultura, e principalmente segurança, que incluem transferência de tecnologia no setor elétrico, de fertilizantes, e contratos com o Grupo Wagner, importante companhia paramilitar russa.
Esse cenário vinha sendo acompanhado com grande interesse pela administração Joe Biden, que buscou disputar este espaço político. No entanto, faltava uma abordagem estratégica mais clara e eficiente, pois as anteriores doutrinas com relação ao continente africano que preconizavam a promoção da democracia e dos direitos humanos ainda prevaleciam. Por outro lado, a administração de Donald Trump ofereceu claros sinais de que mudaria radicalmente a política africana da Casa Branca desde que assumiu o novo mandato. A dissolução da USAID e o estabelecimento de um acordo bilateral com o Congo e a Ruanda por fora das instituições multilaterais africanas e globais entre junho e julho de 2025 demonstravam que os Estados Unidos estavam substituindo a histórica doutrina de intervenções humanitárias por algo novo. A nova política é resumida da seguinte forma na Estratégia de Segurança Nacional apresentada em dezembro de 2025:

Capa da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 2025. Acessível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf
”As oportunidades de engajamento podem incluir a negociação de soluções para conflitos em andamento (por exemplo, RDC-Ruanda, Sudão) e a prevenção de novos conflitos (por exemplo, Etiópia-Eritreia-Somália), bem como ações para aprimorar nossa abordagem em relação à ajuda e ao investimento (por exemplo, a Lei de Crescimento e Oportunidades para a África). E devemos permanecer vigilantes quanto ao ressurgimento da atividade terrorista islâmica em partes da África, evitando, ao mesmo tempo, qualquer presença ou compromisso americano de longo prazo.
Os Estados Unidos devem fazer a transição de uma relação com a África focada em ajuda para uma relação focada em comércio e investimento, favorecendo parcerias com Estados capazes e confiáveis, comprometidos em abrir seus mercados para bens e serviços americanos. Uma área imediata para investimento dos EUA na África, com perspectivas de um bom retorno sobre o investimento, inclui o setor de energia e o desenvolvimento de minerais críticos. O desenvolvimento de tecnologias de energia nuclear, gás liquefeito de petróleo e gás natural liquefeito, apoiadas pelos EUA, pode gerar lucros para empresas americanas e nos ajudar na competição por minerais críticos e outros recursos (WHITE HOUSE, 2025, p. 29).
O comandante do AFRICOM designado por Donald Trump, o general Dagvin Anderson, tem emulado essa linha política a partir da normalização das relações com o Mali e o estabelecimento de uma parceria de segurança com a Nigéria no âmbito do combate ao terrorismo entre os meses de janeiro e fevereiro desse ano. A escolha do general Anderson foi cuidadosa, pois o oficial de alta patente possui boa parte de sua carreira ligada a Guerra ao Terror e as operações especiais, tendo inclusive já liderado o próprio Comando de Operações Especiais da África (SOCAFRICA) entre 2019 e 2021. O novo comandante do AFRICOM acredita que apesar dos desafios representados pela expansão do terrorismo, a principal ameaça aos interesses dos Estados Unidos relaciona-se com a forte presença chinesa e russa no continente. Em uma entrevista no ano de 2020 para o Combating Terrorism Center Sentinel da Academia de West Point, diz o general:
”A África ocupa uma posição estratégica, e é importante que nos envolvamos. O que tenho observado é que praticamente todas essas nações africanas estão preocupadas com o extremismo violento e o terrorismo. E nós, com nossas Operações Especiais, trazemos grande credibilidade e valor para ajudá-las a lidar com essa preocupação de segurança. A capacidade de estabelecer parcerias com elas e abordar essa questão de segurança nos dá acesso, nos proporciona oportunidades de engajamento e influência para que possamos competir com outras potências globais — China e Rússia — e garantir que tenhamos acesso, e que o mundo também tenha acesso, a esses recursos vitais para nossas economias .” (ANDERSON, 2020)

Dagvin R. M. Anderson, general da Força Aérea dos Estados Unidos. Exerceu cargos burocráticos e também no âmbito do treinamento de oficiais que atuavam no setor de operações especiais. Durante o período em que comandou o SOCAFRICA, planejou diversas operações contra a Al-Qaeda e o Al-Shabaab na África Oriental.
Portanto, embora o terrorismo seja considerado algo preocupante para os Estados Unidos, o mais importante para a nova estratégia estadunidense tornou-se alinhar os interesses entre os círculos dirigentes das sociedades africanas, especialmente no Sahel, com Washington para garantir acesso privilegiado aos recursos humanos e naturais africanos. A proposta de desenvolver operações especiais a partir do estabelecimento de missões de treinamento envolvendo militares de países como Mali, Nigéria e Níger é parte dessa política para o estreitamento de laços a partir de necessidades estratégicas e potenciais benefícios comuns, explorando o vazio geopolítico deixado pela incapacidade da Europa em sustentar sua hegemonia no continente, especialmente a França. Essa novidade histórica tem um precedente de sucesso na América Latina por ocasião do bem-sucedido alinhamento entre os interesses dos círculos militares e econômicos de diversos países e dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, especialmente durante as décadas de 1960 e 1970. Essa aliança permitiu que os estadunidenses reprimissem as revoluções nacionalistas e socialistas no continente e que essa elite mantivesse históricos privilégios políticos e sociais. Essa conexão permanece viva ainda hoje apesar das crescentes e diversas fricções de Washington com os setores econômicos que desenvolvem relações comerciais com a China porque a associação com os Estados Unidos não é somente econômica, mas também política e ideológica.
O interesse político estadunidense no continente africano, sobretudo o Sahel, é notório pelo menos desde a Guerra Fria. Eventos como a Crise Congolesa (1960-1965) e a Guerra Civil Nigeriana (1967-1970) contaram com uma presença ativa e relevante do país. Entretanto, cabe salientar que desde que os Estados Unidos tornaram-se independentes no final do século XVIII a África Ocidental é uma região com a qual mantêm vínculos históricos, um olhar estratégico e diferentes formas de intervenções diretas e indiretas. Por exemplo, a perda do acesso direto ao comércio de escravizados no continente africano após a independência fez com que os traficantes estadunidenses entrassem em guerras com a Tripolitânia e a Argel otomanas no início do século XIX para manter o suprimento de africanos para os Estados Unidos. É possível citar ainda as tentativas de colonização mediante a migração forçada de ex-escravizados para a Libéria a partir de 1821 que mais tarde resultaram no estabelecimento de um dos principais Estados fantoches estadunidenses no mundo.
Apesar destes e de outros grandes esforços, a presença direta estadunidense no continente nunca foi plenamente efetiva. Os Estados Unidos não tinham a capacidade de reverter o domínio europeu sobre a África, mesmo no período de seu maior poder e prestígio durante a segunda metade do século XX. Um exemplo é a intervenção na Somália na década de 1990, que foi um desastre militar tão vergonhoso, que boa parte das informações e histórias associadas a essa ação militar, justificada por ”princípios humanitários”, foram suprimidas. A criação do AFRICOM na administração de George Bush era uma tentativa de reverter esse quadro seguindo o exemplo de ”sucesso” do CENTCOM (Comando Central dos Estados Unidos) no Sudoeste da Ásia, criado na década de 1980 como parte da estratégia de regionalização de comandos militares estratégicos proposto nas administrações de Jimmy Carter e Ronald Reagan.
O CENTCOM permitiu que Washington estabelecesse o controle sobre o Afeganistão e as principais reservas de petróleo no Sudoeste da Ásia em um momento no qual a antiga potência colonial, a Grã-Bretanha, perdeu espaço político. Embora Estados como a Líbia, a Síria, o Irã e o Iraque fossem adversários regionais para Washington, quase todos foram destruídos após décadas de pressão política e militar. Os Estados Unidos esperam desdobramentos similares do AFRICOM em virtude do declínio do poder de influência e coerção da Europa sobre os jovens Estados independentes africanos. A África Ocidental, especialmente o Sahel, foi um foco deste projeto desde o início mediante parcerias militares e de inteligência através de projetos como a Sahel Initiative (2002) e a Parceria Transahariana de Contraterrorismo (TSCTP) (2005). Neste período, estudos conduzidos pelo Pentágono e alguns serviços de inteligência mostravam que a Al-Qaeda ampliava os recrutamentos nessa região para abrir uma frente africana. Contudo, a pretensão estadunidense de expandir as suas ações e presença no continente africano foi obstaculizada durante muitos anos pela França, que através do seu círculo de líderes tutelados na CEDAO (Comunidade dos Estados da África Ocidental) manteve e reafirmou a hegemonia em diferentes ocasiões. O principal exemplo recente foi a intervenção no Mali através da Operação Serval (2013) após a eclosão de uma crise generalizada por causa de um câmbio de regime ”à moda francesa” na ”zona da Françafrique” em 2012 e os impactos gerados pela destruição da Líbia a partir da execução de Muammar Gaddafi.
Neste ponto cabe dizer que o terrorismo não era um problema significativo no continente africano até a década de 2010. Grupos como o Al-Shabaab e o Boko Haram sinalizavam mais problemas políticos e sociais locais do que uma iniciativa fundamentalista transnacional ligada ao princípio da ”Ummah” muçulmana. Na verdade, as maiores preocupações entre as diversas classes sociais africanas ainda eram parecidas com os dilemas existentes do fim da Guerra Fria, quando o continente estava sitiado por violentas ditaduras aliadas das antigas metrópoles que traziam um modelo de desenvolvimento desigual e autoritário. Poucas famílias e grupos sociais beneficiavam-se das diversas ditaduras existentes, e parte dessas sociedades que demandava mudanças era duramente reprimida. A principal preocupação entre os diversos movimentos políticos na África neste período era construir Estados capazes de superar estes problemas. Com o fim do bloco socialista a partir de 1989 e a imposição do Consenso de Washington, o caminho escolhido pela maior parte dos africanos foi a construção de democracias liberais.
À semelhança da América Latina e do Sudeste Asiático, as democracias liberais africanas são um fenômeno recente que emergem na esteira do fim do apartheid na África do Sul (1994), a derrubada da ditadura Mobuto no Zaire- atual Congo- (1997) e o fim da última junta militar da Nigéria em 1998. Os arquitetos desse movimento esperavam transplantar os regimes democráticos que conheceram nos Estados Unidos e na Europa Ocidental na África, e para isso contavam com toda ajuda de instituições como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o USAID. Esse processo isolou os regimes abertamente autoritários- como Chade e o Gabão- e experiências políticas anticoloniais- como Zimbábue-, que passaram a ser exceções, por interesse ou incapacidade de maiores pressões vindas da França ou dos Estados Unidos. No entanto, essas democracias liberais não apenas eram extremamente frágeis- e quase sempre suscetíveis a quarteladas quando líderes mais nacionalistas eram eleitos- como mantiveram e intensificaram o modelo de desenvolvimento existente durante as ditaduras baseado em relações de dependência e periferização econômica. A única coisa diferente na prática eram as terminologias políticas, baseadas nos conceitos de State Building (Construção de Estados) e Effective Democracy (Democracia eficiente) promovidas durante as décadas de 2000 e 2010.
A Guerra ao Terror e a destruição da Líbia alteraram esse cenário. A inexistência de um Estado líbio transformou o Norte da África em uma zona de recrutamento, transporte, treinamento e estoque logístico para uma série de grupos terroristas que operavam anteriormente em ex-repúblicas soviéticas e no Afeganistão. Relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre o Crime e as Drogas (UNODC) recentes indicam uma chocante proliferação de armas para o Sahel após a execução de Gaddafi em 2011, que ocorre concomitantemente a expansão do terrorismo no continente africano. E isso não era mera coincidência. A França buscava replicar a Guerra do Terror de Bush e Obama no Sahel para garantir um realinhamento de suas ex-colônias, passando não apenas a aumentar o contrabando de armas e o apoio indireto a grupos insurgentes no Sahel, como também através do emprego direto de tropas ou até mercenários. Naquela altura as elites francesas tinham sérias preocupações com o futuro de sua posição na África, principalmente nas ex-colônias, porque o Estado francês já não era mais capaz de sustentar a hegemonia financeira e militar existente há décadas por conta das transformações na geoeconomia global que deslocaram o dinamismo do Atlântico Norte para a região Ásia-Pacífico. Um dos principais sintomas desse processo foi a ampliação da presença sino-estadunidense no continente africano.
No entanto, devido às dinâmicas sociais e políticas criadas pela retórica anti-islâmica e ingerencista da França, os planos das elites francesas naufragaram. Os clãs tuaregues, importantes aliados franceses na luta contra Gaddafi e o Estado malinense anteriormente, formaram a sua própria aliança com a Al-Qaeda, alguns chegaram declarar lealdade ao Estado Islâmico, e passaram a hegemonizar todo o contrabando de metais preciosos e a distribuição de armas no Sahel. Estes mesmos grupos promovem um processo de recrutamento massivo respaldado tanto em termos religiosos, políticos e étnicos, quanto econômicos e até mesmo sociais.
O sucesso e a capilaridade do terrorismo devem ser compreendidos pelas condições políticas e sociais do Sahel. Porções consideráveis da população local estão sendo violentamente afetadas pelo processo de desertificação na região do Sahel derivado das mudanças climáticas, algo que resulta em migrações forçadas, na intensificação do empobrecimento local e na destruição de suas relações sociais e culturais milenares. Em meio a essa crise, os povos afetados por essas transformações não possuem amparo material algum de seus governos, que são majoritariamente autoritários e corruptos, mesmo quando nominalmente liberais democráticos. O quadro é ainda mais grave quando se realiza uma qualificação sobre os que são diretamente impactados por esse problema, normalmente grupos sociais e étnicos marginalizados do poder político históricamente. Logo, a radicalização política através da religião ou de outros canais é uma consequência desse processo complexo.
Podemos citar o Mali como um bom exemplo de como essas tensões são expressas. O ex-presidente malinês Ibrahim Boubakar Keita (IBK), derrubado após grandes manifestações em 2020 que resultaram no movimento militar liderado pelo coronel Assimi Goita, possui origem étnica mandinga e é de uma família poderosa no país desde antes da colonização francesa. Um dos líderes do Movimento 5 Junho era ninguém menos que o Imã Mahmoud Dicko, de origem étnica fula, e membro de um dos mais importantes clãs fulas do Sahel. Embora o exercício de sua liderança religiosa possa ser caracterizado e analisado a partir de relações cinzentas com o jihadismo e ideias extremamente conservadoras, Dicko também estava ecoando as demandas políticas e sociais de seus seguidores, cuja maioria absoluta é de povos marginalizados na estrutura de poder malinesa existente. Inclusive, é preciso dizer que o imã malinês nunca declarou oficialmente lealdade ou apoio ao Estado Islâmico ou a grupos ligados a Al-Qaeda no Sahel a exemplo de outros clãs fulas, como os Macina, liderados por Amadou Koufa, fundador do JNIM.
No entanto, cabe dizer que o terrorismo não é a única via de reação social. Em anos recentes, os setores militares voltam a assumir o protagonismo político na África mediante a movimentos que encontram respaldo popular, e que por vezes resgatam momentos históricos e discussões presentes nos primeiros anos de independência dos países africanos, e que também têm buscado soluções para o problema do terrorismo. O Burkina Faso, liderado por Ibrahim Traoré- que evoca política, ideológica e imagéticamente Thomas Sankara- é um caso exemplar. Inclusive, citando o caso do Mali novamente, cabe assinalar que os arquitetos do novo Estado malinês pós-2020, o general Sadio Camara e o coronel Assimi Goita não são de famílias ligadas às elites historicamente dominantes no Mali. Portanto, os militares também são vistos pela população do Sahel e de outras partes no continente africano como um grupo que representa a unidade dos interesses entre os diferentes grupos étnicos por causa do seu caráter profissional, que não representa clãs, famílias ou classes sociais. Existe uma percepção social semelhante sobre radicalismo islâmico e as suas diferentes vertentes.
A expansão do terrorismo na África não é o resultado de uma questão religiosa ou até mesmo cultural e étnica, como alega Donald Trump e a propaganda difundida com base na teoria do Choque de Civilizações proposta por Samuel Huntington. A campanha de proteção selecionada dos cristãos- não oferecida aos cristãos palestinos massacrados por Israel, por exemplo- é na verdade parte de um amplo projeto de revitalização da Guerra ao Terror com foco específico no continente africano. Como em outras partes do mundo, o crescimento do terrorismo na África está vinculado a problemas sociais, ambientais, políticos e econômicos que surgem no arcabouço de um modelo de desenvolvimento dependente neocolonial. Porém, os Estados Unidos consideram essas vulnerabilidades uma oportunidade para renovar a sua estratégia africana e assumir uma posição mais vantajosa para o seu plano de defesa da supremacia global estadunidense.
Considerando tais elementos, retomar o caso da Nigéria para analisar esse processo é crucial e exemplar. O país alvo da ação militar estadunidense em dezembro enfrenta insurreições desde a região norte do país há décadas, que precedem o aparecimento do terrorismo na África. Historicamente, o engajamento de Washington com o país sempre envolveu a promoção da democratização e dos direitos humanos. O USAID e diversas outras instituições desenvolveram uma série de projetos associados a saúde e educação na Nigéria para alinhar o país e a sociedade nigeriana a concepção política global estadunidense. As relações bilaterais com Abuja sempre foram um importante sintoma da temperatura do engajamento dos Estados Unidos no continente porque o país tem sido uma aposta para a projeção de influência há décadas.
Embora uma das principais ações da USAID tenha sido historicamente a promoção de câmbios de regime em várias partes do mundo, também existiam projetos que desenvolviam assistência humanitária em países e regiões de grande vulnerabilidade social. Na Nigéria, por exemplo, a agência do Departamento de Estado possuía projetos de impacto social relacionados com a prevenção da difusão do HIV/AIDS e também no campo da segurança alimentar, especialmente no norte. Porém, após dissolver os projetos da agência e substituir o modelo de parceria e de ”ações humanitárias” por missões focais no campo da economia e da segurança, a Casa Branca propôs replicar os compromissos anteriores firmados com países como o Paquistão, de forma a alinhar política e ideológicamente os militares nigerianos, e prepará-los para assumirem a direção direta ou indireta do país. O Grupo de Trabalho Conjunto Nigéria-EUA para a Segurança foi estabelecido oficialmente em janeiro com o foco central em melhorar materialmente as condições das forças militares e preparar uma nova geração de soldados e oficiais para capacitar as forças armadas na luta contra o terrorismo.
Oficialmente, esses novos projetos no âmbito militar visam preparar o país para enfrentar o problema do terrorismo, replicando as operações especiais conduzidas em países como o Paquistão contra os talibãs. Na prática, as forças armadas nigerianas serão preparadas para serem a mais poderosa força ostensiva de contra-insurgência e repressão política na África. Além de ser o país com a maior reserva de petróleo no continente, a Nigéria é o mais populoso e possui a mais importante economia africana, e é uma das três potências regionais do Atlântico Sul ao lado do Brasil e da África do Sul. Desse modo, é possível afirmar que os Estados Unidos preparam um projeto político para o médio e longo prazo. E para isso, as contradições e as vulnerabilidades nigerianas, especialmente as diferenças entre o norte e o sul, são vistas como uma oportunidade estratégica para atuar nos espaços adjacentes ao país, que é visto como um Estado-Pino. Um conceito/expressão comum desenvolvido pelo ex-Conselheiro de Segurança Nacional de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, para designar Estados de importância espacial geográfica para uma projeção política regional a partir do poder econômico, da força militar, e de outros elementos.
Além de estar inserido no círculo das principais potências do Atlântico Sul e do continente africano, a proximidade geográfica da Nigéria com o Sahel é outra vantagem, pois a presença de uma missão militar permanente permite o desenvolvimento de operações encobertas em toda a região, bem como o acesso direto a recursos naturais na área, de forma legal ou ilegal. O Mali, o Burkina Faso e a Gana possuem grandes reservas de ouro, cujo uso comercial e econômico está ganhando grande importância em face da crise de confiança sobre o dólar. As reservas de urânio presentes no Níger, Chade e outros países do Sahel são as maiores mapeadas fora do continente asiático, e foram durante muito tempo exploradas apenas pela França, mas com a nacionalização do minério, o quadro global de abastecimento e de preços desse recurso foi completamente alterado. Por fim, cabe assinalar que existe uma grande quantidade de espaços com metais raros na região que ainda não foram mapeados, bem como significativas reservas de lítio. Logo, a reorganização do AFRICOM está diretamente associada aos interesses de administrar ou ao menos controlar a circulação desses recursos, e explorar as tensões políticas internas na Nigéria para reintroduzir a Guerra ao Terror no Sahel cumpre um papel crucial.
Convém destacar que o problema das relações entre o sul e o norte da Nigéria não é religioso ou étnico, é fruto de uma unidade nacional frágil e artificial criada durante o período colonial britânico. A atual delimitação espacial nigeriana começou a ser criada entre o fim do século XIX e o começo do XX através da paulatina conquista britânica dos Reinos de Benim e Oyó, que foram acoplados ao projeto colonial através da educação, do missionarismo, e também da violência. Porém, o norte da Nigéria apenas foi completamente conquistado no começo do século XX com a destruição do Sultanato de Sokoto com a ajuda das elites dos antigos reinos africanos locais e da França. Os britânicos submeteram administrativamente a região aos povos localizados no sul como uma forma de usar ”nativos contra nativos” e fortalecer a colonização. No entanto, essa política britânica criou fortes tensões que evoluíram para episódios de violência durante e após a independência do país. A Guerra Civil Nigeriana (1967-1970)- também conhecida como Guerra de Biafra- foi um dos desdobramentos mais críticos desse processo.
Essa formação histórica favoreceu ao desenvolvimento da hegemonia política das elites do centro e do sul da Nigéria no período independente. Por outro lado, o norte do país permaneceu como uma área mais empobrecida, subrepresentada politicamente e marginalizada socialmente. Esses elementos foram combustíveis fundamentais para a alimentação de grupos como o Boko Haram, que além de identificar no estabelecimento de um califado a solução para os problemas sociais do país, também critica o modelo de Estado política e ideológicamente referenciado nas instituições liberais ocidentais, que tinham sido responsáveis pela situação de miséria e violência locais. Compreender isso é importante porque apesar da maioria dos grupos terroristas do norte da Nigéria e do Sahel declararem lealdade ao Islã, e até mesmo serem simpáticos ao estabelecimento de um Califado Islâmico, as suas agendas políticas não são as mesmas que a do Estado Islâmico.
Movimentos como o Boko Haram e o JNIM possuem interesses regionais próprios que conflitam com as diferentes correntes salafi-jihadistas existentes no mediterrâneo, especialmente no Sudoeste da Ásia. O conceito muçulmano da ”Ummah” nem mesmo é consenso entre os diversos grupos que reivindicam diferentes origens teológicas e políticas. A Frente de Libertação do Azawad, por exemplo, composta unicamente por tuaregues, mantém uma aliança pragmática com o JNIM para combater o Estado malinês, mas possui o seu próprio objetivo de estabelecer um Estado exclusivista entre o Sahel e o Sahara para os clãs bérberes. O Boko Haram, por sua vez, também reivindica a construção de um Estado exclusivista para os povos do norte da Nigéria que resgataria as tradições do Sultanato de Sokoto e outros califados existentes no Sahel entre os séculos XVIII e XIX.
Desse modo, o governo dos Estados Unidos aproveita-se de todas essas disputas e cizânias oriundas de problemas históricos no continente africano para apresentar uma nova estratégia de supremacia militar e diplomática na África. O novo rumo ainda está em seus passos iniciais mas já pode apresentar o caso da Nigéria como um sucesso estratégico, que pode ser usado para outras situações no continente, como no Moçambique. O governo moçambicano também tém travado uma luta de quase uma década contra um movimento de insurreição armado na área de Cabo Delgado, que declarou lealdade ao Estado Islâmico em 2017, cuja situação possui política e social possui certas semelhanças com o caso nigeriano. A região nuclear do conflito possui a maior reserva de gás natural na África Oriental e Austral e já atraiu diferentes projetos de exploração e de segurança apoiados pela União Europeia, mas que recentemente têm atravessado desafios políticos e financeiros para o seu efetivo desenvolvimento. A nova estratégia africana também pode contribuir para fortalecimento da presença política e militar dos Estados Unidos na Somália em um momento de grande importância do Estreito de Bab al-Mandeb para o esforço de controle das rotas comerciais marítimas globais para a manutenção da sua supremacia econômica.
Os planos estadunidenses podem até não terem a coerência necessária para uma abordagem política ampla no continente abrangendo potências regionais como a Etiópia e a África do Sul, com os quais Washington possui um recente desgaste, mas reenergizam a luta pela supremacia sobre o continente, que terá um papel de grande impacto para a ordem mundial no resto do século XXI.



