Porque um cessar-fogo na Guerra na Ucrânia deve ser motivo de preocupação para o Brasil?

A partir do golpe de Estado da Euromaidan em 2014 a Ucrânia transformou-se em um projeto político muito mais amplo do que a expansão da OTAN. Os círculos de orientação fascista que passaram a integrar os aparelhos estatais do país, sobretudo na inteligência, na polícia e nas forças armadas chamam a atenção desde então por conta dos massacres e das perseguições políticas contra os ”não-ucranizados” e por reivindicarem abertamente a instalação de um Estado nos moldes do fascismo clássico no século XXI. Embora existam pessoas que neguem isso ainda hoje através da justificativa de um ”imperialismo russo”, órgãos como a Anistia Internacional e outros grupos globais de direitos humanos reconhecem a gravidade do problema há anos e alertam para os desdobramentos políticos gerados pela crescente fascistização da Ucrânia no curso da década passada. Um dos desenvolvimentos ocorridos no curso desse período foi o visível fascínio de variados grupos de direita ao redor do globo que passaram a usar a Euromaidan como um ”exemplo de luta” pelos ”valores ocidentais” e contra o ”comunismo”.

As derrubadas das estátuas de Vladimir Lenin ou dos heróis do Exército Vermelho, que contribuíram para que os povos da Ucrânia soviética existissem após a Segunda Guerra Mundial, eram uma parte simbólica mas não o ato principal desse drama. Nos bastidores, o novo governo ucraniano passou a usar o seu próprio território como uma espécie de centro de treinamento para a formação de batalhões paramilitares de outros países seguindo o exemplo dos grupos que participaram da Euromaidan, as chamadas ”Forças de Autodefesa de Maidan”. No dia seguinte à derrubada de Viktor Yanukovich, o recém-nomeado ministro do interior da Ucrânia Arsen Avakov emitiu a autorização para que os grupos milicianos de orientação fascista como Setor de Direita, Batalhão Azov e afins, fossem integrados às organizações de segurança e inteligência do país. Meses mais tarde, durante a primeira guerra no Donbass (2014-2015), o mesmo ministério legalizou o recrutamento de estrangeiros para as mesmas estruturas de segurança e inteligência. Nesse sentido, vale apontar que participaram desse arranjo muitos militares, criminosos e até terroristas, que inicialmente eram oriundos de várias ex-repúblicas soviéticas e de diversas regiões russas, especialmente tchetchenos, que inclusive criaram um batalhão próprio homenageando um dos progenitores da Al Qaeda no Cáucaso, Dzhokar Dudaev.

O treinamento de militares estrangeiros na Ucrânia replica uma velha estratégia dos Estados Unidos utilizada durante a guerra no Afeganistão na década de 1980. A Casa Branca não apenas apoiava a formação de dezenas de grupos terroristas no país contra o governo socialista afegão, e depois contra a presença soviética, como também contribuiu para a propaganda de uma cruzada islâmica contra o comunismo em todo o mundo árabe-muçulmano que mirava não apenas a União Soviética, mas também Estados laicos como o Iraque, a Líbia, a Síria e a Argélia. O resultado da estratégia foi eficaz, pois os diversos líderes militares e religiosos radicais recrutados para lutar no Afeganistão pelo MI6, pela CIA e pelo ISI (Serviço de Segurança do Paquistão) passaram a agir como ativos da inteligência estadunidense nos países citados e em vários outros, fundando grupos terroristas como a Al Qaeda, cujo chefe era um dos principais recrutadores de mujhadeens, Osama Bin Laden. Embora Bin Laden e o seu grupo tenham sido criminalizados após o 11 de Setembro, seus comandados tiveram participação ativa nas Primaveras Árabes que resultaram nos bem-sucedidos câmbios de regime em países como a Líbia, que hoje está entregue a milícias armadas. Portanto, a construção de uma narrativa heróica ao redor da Euromaidan foi crucial para a arregimentação dessa campanha de longo prazo abrangendo grupos fascistas da mesma forma que a jihad antissoviética no Afeganistão na década de 1980.

Desde o início da Euromaidan a população brasileira foi uma das mais seduzidas por essa propaganda com verniz liberal que buscava esconder as raízes fascistas. O impacto do magnetismo exercido por esse processo histórico no Brasil costuma ser pouco analisado ou subestimado. Uma das principais bandeiras que ganham força nesse período, a luta contra a corrupção, era composta por jargões que claramente inspiravam-se na ”Revolução Ucraniana”, e infectaram o Ministério Público e o Poder Judiciário, contribuindo para a crise da Nova República após o golpe de Estado de 2016. A face institucional desse movimento era o juiz Sérgio Moro, cujo projeto político de poder através da Operação Lava Jato fracassou após colidir com o movimento de massas construído ao redor de Jair Bolsonaro e a mudança de atitude dos líderes do atual Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro que suprimiram o movimento porque passou a ameaçar a estrutura hierárquica judiciária. No entanto, a Ucrânia não inspirou apenas funcionários públicos do judiciário suscetíveis a campanha fascistizante difundida pela Euromaidan, policiais, militares, milicianos e até mesmo grupos fascistas organizados no Brasil viam ali a oportunidade de inspiração, aprendizado e de treinamento. O termo ”Ucranização do Brasil” não deve ser encarado apenas como um jargão ou palavra de ordem de algumas das ”seitas bolsonaristas”, trata-se de um real horizonte estratégico para estes grupos da mesma forma como os órfãos dos mujhadeens da guerra no Afeganistão durante as décadas de 1990 e 2000.

Um caso emblemático dessa relação pode ser visto através do instrutor de tiro Alex Silva, conhecido no Brasil por ter sido preso carregando uma bandeira de uma organização fascista ucraniana durante as manifestações contra o isolamento social durante a Pandemia da Covid-19 em 2020. Silva participou dos treinamentos de centenas de membros do ministério do interior da Ucrânia desde a Euromaidan, e tornou-se uma importante ponte de contato entre a Ucrânia e os brasileiros interessados em entrar no país para adquirirem experiência de guerra. Através dessas pontes, o instrutor de tiro manteve relações com grupos que participaram do levante fascista de 8 de janeiro de 2023 no Brasil, que levaram até mesmo a ABIN a incluí-lo em uma lista de pessoas de alta periculosidade. As informações sobre a formação militar anterior e como Alex Silva conseguiu a estadia em Kiev são obscuras, inclusive existem especulações sem provas de que integrou a Legião Estrangeira Francesa, e que também tinha tido experiência militar prévia em conflitos em outras partes do mundo. De qualquer forma, Silva e outros brasileiros que atuam como recrutadores da legião internacional ucraniana no Brasil alegam que as motivações de sua participação na guerra são principalmente ideológicas, girando ao redor dos ”ideais” difundidos pela chamada ”Revolução Ucraniana”. Quando começou a Guerra na Ucrânia em 2022, histórias semelhantes circularam pelas redes sociais através de portais abertamente fascistas, que a exemplo de Silva, propagandeavam o lema ”Ucraniza Brasil”.

Porém, o militar Alex Silva não foi o único, e nem é o mais famoso por ter construído essa ponte entre o paramilitarismo fascista ucraniano e os setores fascistas no Brasil. Sara Winter, líder fundadora do Batalhão dos 300 de Brasília, foi quem tentou replicar na prática a estratégia dos batalhões de autodefesa de Maidan para o Brasil a partir de junho de 2020- momento em que o próprio Alex Silva estava no Brasil e fora preso em São Paulo. Naquele período, o clima de tensão entre o STF e o então presidente Jair Bolsonaro por conta das medidas de restrição sanitárias envolvendo a Pandemia da Covid-19 atingiu um ponto alto com os pedidos de fechamento de regime por parte dos grupos fascistas que apoiavam o governo. Foi exatamente explorando esse momento que Sara Winter organizou o Batalhão dos 300 de Brasília para acampar na frente do edifício do STF seguindo o mesmo script que os ucranianos adotaram entre 2013 e 2014. Embora o plano tenha dado errado porque a reação do supremo foi rápida e a líder fascista presa, um levante seguindo o mesmo plano conseguiu ir mais longe em janeiro de 2023 e quase concretizou um golpe de Estado.

E aqui é que o Brasil- e outros países que fornecem mercenários à Ucrânia- fica perante um dilema político grave. Caso a proposta de cessar-fogo desenvolvida por Trump para Rússia na Ucrânia seja aceita em algum momento pelo Kremlin e a guerra seja estabilizada, os serviços que esses militares brasileiros realizam para o governo ucraniano poderão ser dispensáveis, o que resultaria em um possível retorno destes ao Brasil. Diante disso, o que fará o governo brasileiro? Aceitará a volta desses mercenários doutrinados pelo fascismo e com experiência de campo de batalha e em táticas de violência paramilitar como se fossem cidadãos comuns que passaram alguns anos fora do país?

O retorno dos mercenários brasileiros que atualmente lutam na Ucrânia já é um debate político no Itamaraty há meses. A legislação nacional proíbe recrutamento no país para grupos mercenários como parte de sua adesão a convenções internacionais sobre o tema, porém graças a uma brecha constitucional existe a possibilidade de que brasileiros celebrem individualmente contrato com organizações mercenárias desde que a motivação seja política e ideológica e não financeira. Porém, o uso desse malabarismo jurídico para proteger os mercenários brasileiros que queiram retornar ao país é uma ameaça à própria segurança nacional, uma vez que é de conhecimento público as conexões ideológico-financeiras entre o paramilitarismo fascista ucraniano e as organizações e associações de orientação fascista no Brasil que participaram de todas as tentativas de golpe de Estado desde 2020.

Cabe ressaltar ainda que o número de mercenários brasileiros presentes na Ucrânia, que é o segundo maior entre os países latino-americanos, não é irrisório. Em uma entrevista para a agência Ria Novosti em 2025, o oficial de alta patente da reserva da marinha brasileira Robinson Farinazzo indicou que pelo menos 500 brasileiros tinham servido ao Estado ucraniano. Muitos dos quais eram ex-policiais militares, militares da reserva ou profissionais do setor de segurança, que por sua vez até chegam a possuir conexões com o crime organizado e o tráfico de armas, como por exemplo, alguns dos operadores de drones que receberam treinamento na Ucrânia e trouxeram as técnicas para o Rio de Janeiro. No entanto, a estimativa de Farinazzo também pode estar abaixo do número real, visto que antes de 2022 já existiam brasileiros na Ucrânia que a exemplo de Alex Silva e Sara Winter estavam realizando treinamento militar de forma extraoficial sem necessariamente terem registro na embaixada ou nos consulados locais.

Realizar esse debate é crucial para as instituições e a sociedade brasileira por conta dos riscos que esses paramilitares representam no seu retorno. A possibilidade de uma desescalada na Guerra da Ucrânia mediante aos esforços do governo Trump já é um cenário possível por conta dos desgastes políticos existentes nas relações entre os círculos políticos dominantes na Rússia por causa do rumo que o conflito tomou. Por mais que o governo russo não consiga obter a vitória política traçada no início da operação militar especial em 2022, isto é, reestabelecer um perímetro de segurança e a estabilidade estratégica, o cessar-fogo já aliviaria as tensões com os Estados Unidos e a Europa e permitiria aos grupos econômicos russos afetados pela guerra a retomada dos ativos, propriedades e outros bens confiscados por Washington e Bruxelas. E ainda que a Ucrânia não transforme-se em uma área completamente neutra e desmilitarizada e que a segurança coletiva europeia não seja reestabelecida, o significativo enfraquecimento ucraniano e o alargamento de uma zona de segurança no sul da Rússia já seriam um bom triunfo militar para o Kremlin.

Contudo, embora a desescalada da Guerra na Ucrânia seja desejável para todas as pessoas que almejam a paz e o reestabelecimento de uma nova arquitetura de segurança coletiva global, não é possível ver os desdobramentos disso em nível internacional com grande otimismo, especialmente para o Brasil. Podemos destacar dois grandes motivos para essa leitura reticente.

Em primeiro lugar, um cessar-fogo na guerra significará o já apontado possível retorno para o Brasil dos mercenários que lutaram na Ucrânia, que foram formados pela ideologia fascista e que adquiriram experiência de combate em uma das guerras mais importantes do século XXI. Esse deve ser o motivo de maior preocupação da nossa parte. Esses indivíduos não vão simplesmente desembarcar com as suas malas milionárias no país, comprar propriedades, realizar empreendimentos e se aposentar como pessoas comuns. Os contatos mundiais realizados por esses mercenários potencializam o desenvolvimento de um verdadeiro ecossistema político e criminal com grandes implicações no país, pois para além de replicarem as suas experiências no Brasil, podem tornar-se verdadeiros comandantes que passariam a operar ativamente em favor de um projeto global fascista.

Em segundo lugar, esse ecossistema político, ideológico e criminal desenvolvido na Ucrânia também abrange o setor de inteligência. Militares como Alex Silva operam na guerra ao lado dos serviços de segurança e inteligência ucranianos que adquiriram grande experiência com operações de sabotagem, execuções selecionadas, e outros tipos de ações de desestabilização com o auxílio de grandes agências como o MI6 e a CIA. Algumas das principais operações desenvolvidas por esses serviços de inteligência de maneira conjunta que podemos destacar são o assassinato do general Igor Kirilov, chefe das Forças de Defesa Radiológicas, Químicas e Biológicas da Rússia, e a Operação Pavutina (Teia de Aranha), que resultou na destruição de infraestruturas e civis e militares no ano de 2025. Portanto, os mercenários que voltariam ao Brasil trariam consigo uma larga experiência e conexões no setor de inteligência para a qual o país não está tão preparado como a Rússia, que diariamente prende células da Diretoria de Inteligência Militar (GUR) e do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU).

Também deve ser motivo de preocupação para Brasília o fato de que o número de mercenários latino-americanos na Ucrânia com tais experiências e conexões em seu histórico profissional cresceu mais do que a quantidade de europeus ao longo do ano de 2025. Colombianos, mexicanos e equatorianos dividem as trincheiras com as forças ucranianas e também representam para os seus respectivos países a mesma ameaça. No entanto, diferentemente do Brasil, Colômbia, Equador e Peru estão muito mais vulneráveis a uma desestabilização política que resulte na imposição de governos fascistas, que poderiam auxiliar os grupos paramilitares brasileiros de forma política, logística e até mesmo econômica. E isso não seria algo inédito na história latino-americana, pois durante a Operação Condor, as ditaduras e os grupos paramilitares de direita que operavam caçando lideranças populares e comunistas mantinham contatos entre si e colaboravam nas denominadas operações de contra-insurgência a partir de conexões estabelecidas através de órgãos como a Escola das Américas.

A ”Internacional Fascista” liderada por Donald Trump e os seus seguidores difere consideravelmente desse ”baixo clero” formado na Ucrânia que estamos analisando. Não é uma ”gangue de colarinhos brancos” que usa os instrumentos da democracia liberal para transmutá-la em um regime fascista a exemplo de figuras como Javier Milei e Georgia Meloni. Esses mercenários são criminosos sem pudor a exemplo do atual chefe de Estado da Síria, Ahmed Al-Shara-anteriormente Abu Mohammad Al-jolani-, que vão recorrer a todo o tipo de violência para chegar ao poder e impor um verdadeiro regime de terror fascista, que nos dias atuais já é normalizado no sistema internacional. O fim das antigas regras internacionais, implodidas pelos Estados Unidos ao longo das últimas décadas, torna essa ameaça ainda mais presente. Poderemos ver não apenas pessoas como Bolsonaro apresentando-se como alternativa política, mas indivíduos como Sara Winter organizando uma legião de seguidores armados e estruturados- e com experiência de conflito- de forma clandestina para desafiar uma República que já conta com dificuldades de controlar o próprio território nacional, que possui áreas completamente controladas por grupos criminosos. Logo, o Brasil está perante um grave problema de segurança nacional que está sendo subestimado pelos setores de inteligência nacional, cuja preocupação principal até o momento recente era grampear youtubers e lideranças de movimentos sociais.

Em nenhum lugar do Brasil os riscos associados a isso são tão evidentes quanto na cidade do Rio de Janeiro, onde o controle armado territorial consegue ser mais organizado que o próprio governo do Estado, que há décadas não possui um projeto político sério para qualquer tema de interesse público, especialmente no campo da segurança pública. Se estes grupos armados, que hoje estão dispersos, descoordenados e com baixa politização mudarem essa realidade a partir de contatos com esses mercenários fascistizados vindos da Ucrânia, o Rio de Janeiro pode ser algo novo, que rapidamente inauguraria um modelo para o resto do país. Nesse caso, o Brasil poderia até mesmo superar o modelo mexicano, e transformar-se em um tipo de Estado no qual o poder político é indissociável do controle armado territorial direto.

A militarização da política, que já é uma realidade no Brasil há alguns anos, ganharia um novo estágio no qual os grupos armados territoriais passariam a constituir setores políticos que disputariam o Estado com o apoio dos setores corporativos e empresariais também interessados nessa situação. Inclusive isso pode ocorrer através de financiamento direto seguindo o exemplo da Alemanha nazista na década de 1930 e da própria Ucrânia pós-Euromaidan.

Este cenário seria obviamente muito benéfico para os Estados Unidos, pois se o Brasil seguir um caminho semelhante ao mexicano, a capacidade do país ser uma potência regional relevante com capacidade de incidência continental e global seria minada. Donald Trump ou qualquer outro chefe de Estado na Casa Branca não teria incômodo algum em coexistir com figuras como Al-jolani em ”seu próprio hemisfério” porque a barbaridade, ”o fascismo de baixo clero”, já foi normalizada no sistema internacional. E o melhor de tudo é que, a exemplo do cortador de cabeças que tomou o Estado Sírio, os mercenários que retornariam ao Brasil também operariam como ativos da inteligência dos EUA dentro ou fora do Estado brasileiro a um custo baixo, pois formariam os seus batalhões para ”lutar pelo ideal”.

Diante de tudo isso é possível afirmarmos com grande preocupação que um possível cessar-fogo na Guerra na Ucrânia no curso do médio e do longo prazo trará para o Estado brasileiro problemas sérios, para os quais não existem ainda as condições e o preparo mínimos para enfrentá-los.

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