Por Roberto Santana Santos
Agenda estratégica apresenta sua análise de conjuntura para o ano de 2026, quando teremos eleições presidenciais no Brasil. Lula começa o ano como favorito à reeleição devido às vitórias e mobilizações de sua base social no segundo semestre de 2025. Há confusão nas fileiras da direita, após a inédita prisão pelo crime de golpe de Estado de Jair Bolsonaro e a cúpula civil e militar de seu antigo governo.
Ao mesmo tempo, o cenário internacional se demonstra hostil, com a implementação da nova Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump que reedita o “novo-velho” imperialismo de conquista de territórios e saque de riquezas alheias, no qual a América Latina é o alvo principal. O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e o processo em curso de fascistização do Estado norte-americano são elementos que apresentam o tamanho das transformações regressivas pelas quais passa o mundo atualmente. Para avaliar esses tópicos e contribuir para o debate em tempos perigosos, Agenda Estratégica apresenta sua análise de conjuntura para 2026. Boa leitura!
I – Fatores internacionais: com Trump, Estados Unidos abandona a hegemonia e parte para a dominação global
1. Ultrapassada a marca de um quarto do século XXI vai ficando mais nítido que a Crise desatada em 2008 e seguida de sucessivas crises nas décadas seguintes (nos anos 2010 a crise da Zona do Euro, a queda abrupta do preço das comodities que impactou negativamente a América Latina; e nos anos 2020, a pandemia de covid-19) são, na verdade, momentos de um processo mais amplo de Depressão capitalista, caracterizado por baixas taxas de crescimento, aumento vertiginoso das desigualdades sociais e uma proliferação do desemprego, subemprego e aumento da exploração, inclusive com o uso das novas tecnologias digitais, com o surgimento de uma nova fração da classe trabalhadora, plataformizada.
2. O neoliberalismo, que remodelou o capitalismo a partir da década de 1970 colocando o capital fictício como eixo da acumulação, nitidamente não é capaz de manter as taxas de lucro no nível exigido pelos grandes conglomerados mundiais, o que rasga o tecido social – desde o negacionismo climático ao desmonte irracional de qualquer tipo de seguridade social – até o retorno do imperialismo “clássico”, com roubo de territórios, “diplomacia das canhoneiras” e criação de “zonas de influência”. As posições esbravejadas por Donald Trump e muito bem expostas em sua Estratégia de Segurança Nacional publicada em dezembro de 2025 desnudam a nova posição dos Estados Unidos: Washington não mais organiza as regras do sistema internacional, mas sim, as implode. Em termos políticos, parte da burguesia estadunidense reconhece a impossibilidade de frear a ascensão chinesa e a multipolaridade e parte para determinar o seu – enorme – quinhão na divisão do mundo. Troca-se a “hegemonia”, quando o poder é exercido pelo manejo da coerção e do consenso, convencendo de que sua posição é benéfica a todos, pela “dominação” aberta e descarada pela força.
3. Essa é a razão pela qual a Casa Branca abandona as regras que ela própria criou em 1945, e a reforçou em posição muito vantajosa em 1991. O capital estadunidense reconhece que tem um concorrente a altura em Pequim e prepara-se para manter sua supremacia. Europa e América Latina são os principais alvos. A primeira, com o cenário cada dia mais concreto de submissão político-diplomática, tendo que arcar com sua própria defesa, abandonada por Washington. A segunda, em situação onde nada fora da submissão total será admitido, com ameaça de uso da força militar sobre a mesa, para manter a supremacia sobre, segundo Trump, “nosso hemisfério”. O sistema internacional entra em nova fase, uma multipolaridade tensa e perigosa, sem hegemonia definida, propensa a conflitos militares e ações de força cada vez mais catastróficas, com uma potência em declínio que não mais negocia, apenas impõe sua vontade pela via coercitiva. Mesmo a China, tão cautelosa, vem paulatinamente modificando o perfil dos BRICS, e ameaçou diretamente o Japão devido a suas pretensões de remilitarização. Esse é o “novo normal” na arena internacional e exigirá uma nova postura de todas as forças que almejam a construção de projetos nacionais contrassistêmicos e uma “globalização alternativa”, baseada na parceria e no respeito mútuo entre as nações.
4. O direito internacional foi assassinado em Gaza e enterrado em Caracas. O genocídio palestino transmitido ao vivo perante um mundo impotente, e o covarde bombardeio americano contra a Venezuela, com o sequestro do Presidente Nicolás Maduro, indicam qual será a tônica da política internacional nas próximas décadas, entre uma potência em declínio, mais ainda dominante, e um Sul Global ainda em rascunho, com enormes potencialidades, mas ainda carecendo de substância. O fascismo e o imperialismo em seu “novo-velho” modos operandi são uma necessidade dos capitais transnacionais e do Estado que melhor o representa, em um mundo que já não opera mais pelos acordos então vigentes, mas que tampouco revela de maneira nítida para onde se dirige. As forças populares brasileiras precisarão rever toda sua política e traçar nova estratégia e táticas para sobreviver nessa arena em convulsão.

II – Lula 3: a necessidade da mobilização de rua para manter a frente ampla antifascista
5. A vitória de Lula na Batalha Eleitoral de 2022 não foi pouca coisa. Depois de uma década de avanço da extrema direita, do Golpe de 2016, sua injusta prisão fruto da conspiração Lava Jato, o uso de toda a máquina pública por Jair Bolsonaro, e um contexto internacional adverso, Lula liderou uma Frente Ampla capaz de bater o então presidente, na maior eleição da história do país. Somente a esquerda organizada e a figura de Lula seriam capazes de tamanha vitória, pois se colocaram radicalmente contrários ao fascismo desde a primeira hora, ao contrário de outros setores “democráticos” da direita que acreditavam ser possível utilizar a extrema direita para retirar o PT do governo e depois devolve-la ao ostracismo. Como de praxe, foram engolidos pelo bolsonarismo e, após o morticínio generalizado da covid-19 e os arroubos autoritários de Bolsonaro, não tiveram outra alternativa a não ser apoiar Lula e compor uma frente ampla antifascista.
6. A “lua de mel”, período de início de mandato em que as críticas são minimizadas, permitiu a Lula costurar a PEC da Transição, praticamente uma recomposição orçamentária do Governo Federal após a devastação bolsonarista, e a substituição do Teto de Gastos por uma versão menos draconiana, o Arcabouço Fiscal. Essa “lua de mel”, entretanto, seria atropelada pela tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023, que permitiu uma forte centralização em Lula como figura garantidora da democracia e a simpatia de boa parte da direita tradicional, especialmente seus porta-vozes do monopólio midiático. O 8 de janeiro escancarou o programa máximo do bolsonarismo, ou seja, o fechamento do regime, tanto quanto sua incapacidade de impor sua hegemonia sobre a classe dominante brasileira, ao não conseguir convencê-la de que uma ditadura dirigida por Bolsonaro seria a melhor forma de superar a Nova República e garantir seus interesses. Parte considerável da burguesia do país se afastou do bolsonarismo desde então, que pese este ainda encontre força em setores relevantes.
7. Superada a ameaça golpista, o governo Lula adotou entre 2023-2025 uma postura “centrista”, como melhor forma de manter a coesão da Frente Ampla e garantir governabilidade em um Congresso majoritariamente hostil. Essa moderação teve, basicamente, três pilares: a) a concentração do governo em disputar a sociedade por resultados econômicos, sob comando de Fernando Haddad, com a recuperação de programas sociais que dão dignidade e oportunidades ao povo, a política de valorização do salário-mínimo para geração de renda e bem-estar, e o lançamento de um novo PAC – Programa de Aceleração do Crescimento conjugado com a retomada do BNDES como financiador de empresas, alavancando investimentos e empregos; b) a opção política pela não mobilização da base militante, como forma de manter a boa relação com a direita tradicional que compõe a Frente Ampla, na esperança de esfriar a polarização em nome de um “pacto pela democracia”; c) a aposta em deixar o julgamento dos golpistas unicamente para a institucionalidade – STF e Procuradoria-geral da República – no intuito de demonstrar o funcionamento dos Poderes democráticos, sem a necessidade de ampla campanha militante pela condenação dos mandates e executores do 8 de janeiro.
8. A partir da metade do mandato, essa direção se mostrou equivocada, derrubando a popularidade de Lula e com o governo enfileirando derrotas no Parlamento e nos debates com a sociedade. Há uma confluência de fatores econômicos e políticos que explicam a situação. Na economia, o cenário de uma depressão no capitalismo internacional e o retorno de certo protecionismo entre os centros globais, acerta em cheio economias que perdem composição técnica como a brasileira; internamente, o Arcabouço Fiscal limita os gastos públicos, ficando bem distantes dos realizados nos primeiros governos Lula; o estado desastroso das contas públicas herdado do governo Bolsonaro, principalmente pelo gasto desenfreado na tentativa de reeleição (contra todos os credos neoliberais, diga-se); os trabalhos por aplicativo que criaram uma nova fração da classe trabalhadora que não necessariamente é alcançada por políticas como a valorização do salário-mínimo, entre outros fatores.
9. No campo político, há um erro de análise tanto em relação ao momento político brasileiro, quanto à natureza de uma frente ampla. Há uma quebra do arranjo político da Nova República com a normalização da extrema direita, ator que originalmente não fazia parte do arco de forças desde o fim da Ditadura. A violação dos mecanismos de legitimidade do arranjo político (contestação dos resultados eleitorais em 2014 pelo PSDB, derrubada do governo Dilma Rousseff contrariando a escolha eleitoral da população, utilização da institucionalidade para perseguição de adversários políticos como na Lava Jato) nutriu não só o crescimento do fascismo, como lhe permitiu organizar uma base social que apoia uma solução de força para a aplicação do seu programa político.
10. Há uma crise da Nova República que recoloca o Golpe de Estado como factível na vida política brasileira e que corrói o tecido social e institucional, com uma guerra cultural promovida pelo bolsonarismo, e uma espécie de crise permanente entre os Poderes da República, onde o Legislativo executa orçamento e almeja se colocar como instância revisora da Suprema Corte, esta se vê obrigada a responder aos ataques diariamente, e o Executivo se equilibra abrindo mão de parte de suas prerrogativas para poder concluir seu mandato. O impeachment se tornou uma banalidade, servindo como instrumento de pressão contra todos os presidentes desde 2014. Não serão apenas bons resultados econômicos – ainda que reais – e crença inabalável nas instituições da Nova República que debelarão essa conjuntura de regressão democrática.
11. Aqui entra a necessidade de compreender o que é uma frente ampla e como agir dentro e a partir dela. Uma frente ampla é uma aliança temporária entre atores rivais para a derrota de um terceiro que ameaça a ambos. Por sua própria natureza de composição de forças antagônicas, está sempre em disputa, com cada lado tentando sobrepujar o outro, sem abrir mão da unidade contra o inimigo comum. Se um dos lados não demonstra força e capacidade de manter sua agenda, acabará executando a agenda do outro, que pese tenha posições importantes, como a Presidência da República. Ao descartar inicialmente a mobilização de rua como parte da Frente Ampla, o governo ficou preso nos labirintos da institucionalidade, terreno que favorece a direita tradicional, que mesmo enfraquecida, ditava a política por meio do Congresso, da imprensa e da Faria Lima. Lula ficou preso em um cerco de três lados (mercado, Centrão e a oposição fascista) que desmobilizou sua base popular, apresentando um governo fraco e que mais falava em austeridade do que em desenvolvimento. Que pese os índices econômicos já apresentassem dados positivos, isso se demonstrou insuficiente para fazer a disputa política contra a guerra cultural do fascismo, que elevou o patamar da luta de classes no país.
12. O governo precisa de mobilização constante de sua base social, tanto para fazer frente aos ataques da extrema direita golpista, quanto para disciplinar os aliados vacilantes. Além de mostrar quem tem o comando da Frente Ampla e garantir que as demandas populares sejam atendidas, a luta de massas dá maior margem de manobra para o governo se movimentar também no institucional. Se o próprio Lula fez trocas importantes para mostrar um governo mais combativo (Sidônio Palmeira fez a comunicação do governo entrar no século XXI, Gleise Hoffmann negocia com altivez com o Congresso, e Guilherme Boulos coloca definitivamente a esquerda da Frente Ampla dentro do Planalto), foram as mobilizações de rua ao longo de 2025, em especial os grandes atos do dia 21 de setembro com a participação de artistas e figuras públicas, que retiraram o governo das cordas e lhe permitiram conquistar vitórias, como a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, a derrota da PEC da Blindagem/Bandidagem e a defesa da soberania contra o tarifaço de Trump, anulado posteriormente em quase sua totalidade. Combinadas com a melhora da economia, a menor taxa de desemprego da história, a retirada do país mais uma vez do mapa da fome, entre outras iniciativas, Lula terminou o ano em alta, com base mobilizada e favorito à reeleição.
13. A prisão de Bolsonaro e da cúpula golpista, inclusive militares, fato inédito na história do país, foi a cereja no bolo de um segundo semestre de vitórias para o campo popular. A incapacidade de aprovar a anistia, tendo que recorrer a uma versão “light” (dosimetria, que deverá ser decidida no STF) escancara a impopularidade da proposta que constrange até mesmo setores do Centrão. Ao deslocar o terreno de luta para a rua, onde as forças populares possuem mais vantagens, a base de esquerda ganha protagonismo na política, faz a disputa da guerra cultural contra a extrema direita e apresenta para o conjunto da população uma série de propostas que realmente discutem melhorias para sua vida, neutralizando parcialmente os chiliques do bolsonarismo. Prova disso é que um dos debates mais presentes entre a população hoje é o fim da escala 6×1, especialmente entre a juventude, enquanto restou ao fascismo falar de anistia para Bolsonaro e pedir intervenção estrangeira a Trump, tópicos que só fazem sucesso entre os setores mais ideológicos do fascismo, não suficientes para vencer uma eleição presidencial.

III – Cenário eleitoral 2026: Lula favorito, Bolsonaro no modo “tudo ou nada”
14. A polarização continua sendo a tônica da política brasileira e deve se repetir nas eleições presidenciais de 2026. As condições para a transformação do fascismo em um movimento de massas continuam presentes e, com isso, o extremismo tende a prevalecer sobre os setores da “direita tradicional”. Como somente a esquerda se coloca por princípio em oposição ao fascismo, reduz-se o espaço para uma candidatura competitiva do campo liberal-fisiológico. Ciente da ameaça autoritária e após o acúmulo de forças do segundo semestre de 2025, o campo popular está coeso em volta da reeleição de Lula, inclusive com boa capacidade de manter setores da direita liberal que compõem a Frente Ampla dentro da aliança. A prisão e inelegibilidade de Jair Bolsonaro abre um dilema para seu campo, já que enfrentar uma liderança do tamanho de Lula com a popularidade em alta e ainda a máquina de governo a seu favor parece tarefa impossível para qualquer candidato que não seja o próprio Bolsonaro. Isso aumenta a possibilidade de diversas candidaturas de direita e diminui a capacidade de atrair setores conservadores que hoje estão no governo Lula.
15. Há dez meses do pleito, Lula surge como favorito, já pontuando nas pesquisas acima dos 40% de intensões de voto. Contudo, num país polarizado e com parte relevante da sociedade fascistizada, é praticamente impossível uma vitória já no primeiro turno, viável mais por erros do adversário do que acertos próprios. A partir da conjuntura atual, os logros do governo e os debates presentes na sociedade brasileira, Lula tem toda capacidade de pautar as eleições. O embate democracia x golpe obviamente aparecerá, ainda mais se o principal oponente for alguém do/próximo ao clã Bolsonaro, mas os tópicos do momento são justiça social, soberania nacional e combate aos privilégios. São pautas que o governo tem tanto o que apresentar (isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, vitória sobre o tarifaço de Trump, retirada do Brasil do mapa da fome, nível mais baixo de desemprego da história, valorização do salário-mínimo, etc) quanto o que prometer (fim da escala 6×1, taxação dos super ricos, nova arquitetura de direitos para trabalhadores de aplicativo, tarifa zero dos transportes municipais, etc), deixando a candidatura bolsonarista falando apenas de austeridade, medidas pró-mercado e anistia para golpistas.
16. Os perigos para a candidatura Lula estão na segurança pública, sua instrumentalização para justificar uma intervenção estrangeira no país e a possibilidade de unidade total da direita. A esquerda possui enorme dificuldade em lidar com o tema da violência, pois, bem intencionada, identifica sua origem – a desigualdade social -, mas não avança para o seu combate. A imagem que passa para a população é de conivência com o crime. Quando grandes espetáculos de barbárie são promovidos pela extrema direita, como a chacina no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro em outubro passado, a sensação é de que “alguém está fazendo alguma coisa”. É necessário combater as facções criminosas e ser duro contra a criminalidade, mas no sentido de desmontá-las e retirar seu poder, o que efetivamente aumentaria a seguridade, ao contrário das intermináveis e ineficientes “operações” militarizadas que quanto mais ocorrem, mais o crime se expande.
17. O crime organizado hoje é uma questão de segurança nacional, pois fica evidente como a extrema direita de todos os países latino-americanos reverbera a fala de Donald Trump em equivaler tráfico de drogas e terrorismo, o que lhe possibilita agir sem autorização do Congresso estadunidense e seria de grande valia para se livrar de adversários indesejáveis (como vimos na Venezuela) ou reverter derrotas eleitorais (um dos elementos que faltaram para o sucesso do 8 de janeiro foi justamente o apoio da Casa Branca). A extrema direita com toda certeza jogará a cartada de que é importante estar junto a Trump para combater o crime e deixar nossas cidades mais seguras, abrindo a possibilidade de intervenção estrangeira no Brasil.
18. No momento de maior baixa na popularidade de Lula (até junho 2025) houve uma tentativa de construir uma candidatura unitária de todo o campo da direita. Tarcísio de Freitas (Republicanos) governador de São Paulo seria o nome capaz de se apresentar como “moderado”, atrair boa parte do Centrão e da direita tradicional, quebrando a Frente Ampla, e ainda sim manter a base bolsonarista. Setores liberais, principalmente por meio da mídia corporativa se apressaram a avalizar essa unidade das direitas que foi atropelada pelas movimentações da família Bolsonaro em articulação com Donald Trump, quando este aplicou o tarifaço contra as exportações brasileiras com o discurso de que seria uma represália à “perseguição” contra Jair Bolsonaro. Tarcísio foi obrigado a cerrar fileiras em defesa do padrinho político e com isso foi por terra sua “moderação”. A habilidade de Lula em forçar Trump à negociação, a altivez do STF em condenar Bolsonaro e a cúpula do Golpe e a mobilização nas ruas mostrando apoio à soberania nacional e à Justiça inviabilizaram a unidade das direitas sob verniz de uma candidatura “bolsonarista sem Bolsonaro”.
19. Jair Bolsonaro precisa de uma candidatura “puro sangue”, até o momento representada por um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Essa necessidade se dá, basicamente, por três razões: a) sem uma candidatura própria, as articulações da direita não passam pela família Bolsonaro, perdendo sua relevância para decidir candidaturas presidenciais no futuro; b) a base eleitoral fascista não aceita “moderações”, o que abre a possibilidade de um candidato azarão que fale o idioma da extrema direita capturar parte desses votos e secundarizar a família Bolsonaro (ex: a candidatura Pablo Marçal nas eleições municipais de São Paulo em 2024); c) a pusilanimidade de Bolsonaro – que não possui a galhardia de Lula para enfrentar a prisão, até porque sabe que é culpado; e os cálculos de Tarcísio, reticente em entrar numa candidatura sem unidade de toda a direita, podendo facilmente se reeleger em São Paulo e estar bem posicionado para 2030 (quando não teria que enfrentar Lula e, talvez, nem “beijar a mão” de Bolsonaro).
20. Flávio Bolsonaro tentará coesionar toda a extrema direita e parte do Centrão “bolsonarizado”, além de rachar ao máximo a Frente Ampla de Lula. Se for bem-sucedido, teremos um cenário semelhante a 2022, com praticamente “dois segundos turnos”. Em caso negativo, poderemos ter mais de uma candidatura da extrema direita, que terá que se disfarçar de “centro-direita”, onde despontam nomes de governadores como Romeu Zema (Novo-MG), Ratinho Jr. (PSD-PR) ou Ronaldo Caiado (União Brasil-GO). Tarefa ainda mais difícil seria uma candidatura do campo liberal/tradicional, que em 2022 não teve nenhum candidato a superar os 5% dos votos, espaço que poderia ser ocupado por alguém do perfil de Eduardo Leite (PSD-RS). De qualquer forma, a família Bolsonaro tem um longo caminho para arregimentar o apoio de toda a extrema direita (PL, Novo, PP, Republicanos, boa parte do União Brasil) e disputar a direita tradicional (PSD, MDB, frações de outras siglas), que tendem a priorizar seus espaços parlamentares e governos estaduais, pendendo para aquela candidatura presidencial que demonstrar maior chance de vitória.
21. Qualquer que seja o cenário, as eleições de 2026 tendem a replicar a polarização, agora com Lula e a esquerda em melhor posição do que em 2022. O pleito, no entanto, será duro, sob um contexto mundial e regional de extrema tensão e uma campanha cada vez mais invadida pelo poder das Big Techs que deixaram bem claro nos últimos anos de que lado se encontram. Será a eleição das deep fakes criadas por Inteligência Artificial, agora à mão de qualquer pessoa pelas redes sociais e aplicativos de mensagem. A extrema direita jogará força nas eleições para o Senado, na esperança de controlar a Casa para sabotar um possível Lula 4 e pressionar pelo impeachment de ministros da Suprema Corte. É a instabilidade permanente como projeto, com sucessivas crises entre os Poderes de modo a pavimentar o caminho para o fechamento do regime. O campo popular precisa estar preparado não só para vencer as eleições, como para assegurar o resultado, contra declarações de fraudes e tentativas de golpe que serão alardeadas pelo fascismo, que conta hoje com apoio de Washington.

IV – Futuro: dilemas para a esquerda brasileira
22. Em 2026 a esquerda brasileira dará seu último voto em Lula. Grande protagonista da Nova República e a maior liderança popular da história brasileira, o Presidente possui uma biografia de lutas em prol dos mais pobres, com uma trajetória de momentos épicos. Seu provável último ato foi nos livrar de um governo genocida com forte tendência ao regime autoritário em caso de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022 e a possibilidade de colocá-lo definitivamente no ostracismo com nova vitória em 2026. Ninguém será “o novo Lula”. Mais do que procurar um nome que o substitua, a esquerda brasileira precisa rever suas movimentações políticas para derrotar o fascismo e, ao mesmo tempo, construir uma Nova Maioria que possa superar as limitações da Nova República e as suas próprias. São de grandes projetos de longo prazo, de construção diária de força social, que nascem e são reconhecidas as lideranças políticas.
23. O fascismo persistirá, pois, a precarização total da vida promovida por décadas de neoliberalismo inconsequente não apresenta nenhuma alternativa que não seja mais exploração, desigualdade e autoritarismo. Vivemos uma crise generalizada do capital que se desdobra na fascistização das sociedades e numa convulsão do sistema internacional onde, sem uma hegemonia definida, vale a lei do mais forte para impor seus interesses. No Brasil, nosso sistema político também apresenta severas cisões que parecem pular de uma crise institucional para outra, com a possibilidade do Golpe de Estado sempre presente. As liberdades democráticas garantidas na Constituição de 1988 precisam ser defendidas a todo custo. Por outro lado, é notório que a Nova República está em um processo acelerado de corrosão de legitimidade, funcionalidade e institucionalidade. Nesse momento, somente as forças do fascismo pretendem superá-la, por um viés retrógrado, perseguindo o fechamento do regime e a instalação de um governo autoritário. Esse projeto ainda não conseguiu hegemonizar a classe dominante brasileira, mas essa possibilidade ainda está em aberto.
24. A esquerda brasileira carece de uma estratégia definida e passa por uma profunda crise ideológica e organizativa. Os instrumentos de organização formulados a partir do ascenso da luta de massas contra a Ditadura nos anos 1980 não mais correspondem às características da classe trabalhadora brasileira. A estratégia “democrático-popular” foi derrotada pelo neoliberalismo, que desinflou o acúmulo de forças dos anos 1980, inviabilizou sua reconstrução mesmo durante os governos petistas e cooptou ideologicamente boa parte das lideranças do campo popular que não mais almejam reformas estruturais e revolução, mas sim, administrar o capitalismo dependente brasileiro de forma “menos injusta”. Temos gerações de militantes de esquerda excelentes em administrar orçamentos e coordenar mandatos parlamentares, mas que nada sabem sobre organização política, estratégia, socialismo, revolução. Estão presos no liberalismo político, no eleitoralismo com fim em si mesmo e não conseguem sequer diferenciar inimigos de aliados. Sem formação política ideológica, parte da militância constrói sua visão de mundo com base nas opiniões de twitteiros e da bancada da Globonews.
25. O “futuro” está batendo a porta da esquerda brasileira. O que existe hoje é imprescindível, mas insuficiente para as batalhas das próximas décadas. É necessário delinear uma estratégia de resistência popular prolongada que permita angariar forças mesmo na defensiva. A ofensiva fascista e a persistência do neoliberalismo, inclusive sua capacidade de construir uma “esquerda da ordem” dentro do campo popular, demonstra a necessidade de pensar e agir a longo prazo. Em um primeiro momento, se a Frente Ampla é imperiosa para evitar uma união de todo o campo da direita comandada por sua versão mais extremada, há de se participar dessa aliança por meio da mobilização constante, única forma de manter sua liderança e garantir que as pautas da classe trabalhadora sejam atendidas.
26. Ao mesmo tempo, é necessário formular novos instrumentos organizativos dentro da realidade atual das maiorias sociais, que permitam a construção de uma base social mobilizável e com horizonte mais amplo e ousado do que os atuais. Essa Nova Maioria deve ter protagonismo no desmonte do condomínio de forças do fascismo, mas ao mesmo tempo, colocar um novo projeto histórico para o povo brasileiro frente a um sistema político em franca decomposição. As mesmas forças da direita tradicional que hoje compõem a Frente Ampla voltarão a ser adversárias do campo popular assim que diminuída ou debelada a ameaça fascista, mas não terão uma novidade política para apresentar ao conjunto da população. Caberá a uma esquerda com estratégia renovada, articulando os diversos segmentos da classe em um novo ascenso de massas, e com uma proposta palpável de futuro passar a ofensiva e superar os limites impostos pela atual conjuntura.
27. O ano de 2026 será decisivo não só pela eleição presidencial, mas por marcar a abertura de um novo momento que movimentará as placas tectônicas da política brasileira, principalmente à esquerda. O campo popular começa o ano bem posicionado para manter a Frente Ampla e alcançar mais uma vitória eleitoral. A luta contra o fascismo, o combate na guerra cultural e a disputa de valores continua central. Por outro lado, já é necessário às forças populares pensar, formular e se organizar para um futuro muito próximo, em condições desafiadoras tanto no cenário interno quanto externo. Não se promovem grandes transformações sem estratégia e ideologia própria. A luta de classes no país nas próximas décadas exigirá da esquerda brasileira fazer mais e melhor do que foi capaz até agora. A alternativa é a barbárie.
Roberto Santana Santos
Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ). Doutor em Políticas Públicas e Mestre em História Política.


